sexta-feira, 18 de agosto de 2017

OUTROS CONTOS

«A Mosca», conto poético por ATEOP.

«A Mosca»
Fragmento de «As Moscas»/ Naza

1074- «A MOSCA»

Vou dizer uma coisa
Em bom português:
S’a puta da mosca poisa,
Fodo-a de vez!

ATEOP

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

SÁTIRA...

Alto Nível
Sátira...

«ALTO NÍVEL»

- Steaua é uma ‘equipe’
Ao ‘nivél’ do Sporting…
Espero que no ‘brafing’,
Ninguém se constipe:
O Leão está com gripe!
(Pergunta ao treinador)
- Não vê o Steaua inferior?
- ‘Tu sabes’, até não vejo mal,
Mas no plano invisual
Eu sou ‘muita’ superior!!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

RICHARD WAGNER
«Carnival of the Animals: The Swan»

Poet'anarquista

Richard Wagner
Interpretação de Stockholm Chamber Duo

OUTROS CONTOS

«Um Lírio-Lua», conto poético por Ted Hughes.

«Um Lírio-Lua»
Poema de Ted Hughes

1073- «UM LÍRIO-LUA»

Maravilhosamente branco é o lírio-lua.
Mas isso não é tudo, oh não, continua.

Quando ele alcança sua plena altura
Mas antes que seu botão inchado apresente brancura

Achas que ouviste a voz de um fantasma em casa –
Ela sussurra e ri, então não é uma rata.

Na noite seguinte ela é uma alegre cantarola.
Vá olhar o teu lírio, verás um fio de pétala branca saindo para fora.

Na noite seguinte é uma cantoria – ao longe
Mas muito clara e doce, e onde quer que te encontres.

A voz está sempre no quarto ao lado.
Lá no jardim, teu lírio está desabrochado.

Por dias então, enquanto tua flor está cheia e orgulhosa
Aquela estranha voz feminina, gentil e feliz, não muito ruidosa,

Vem e vai na tua casa, ao longo da madrugada.
Até que uma noite – de repente – chora. Alguma coisa está errada!

E sabes, lá no jardim, antes de tua saída
A flor do lírio começa a ruir, sua cor de neve escurecida

Então vem as noites de silencioso choro, sem sono para ti
Até que o murchar de teu lírio já esteja no fim.

Ted Hughes

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

PESAR...

A Queda
Pesar...

«A QUEDA»

O azar trouxe a morte,
Na Madeira acidente…
Caiu árvore doente,
Treze vidas, pouca sorte!
Um carvalho de porte
Deu em não resistir,
Em queda livre a ruir
Treze vidas ceifou…
De pé não aguentou,
E acabou por cair.

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

GRATEFUL DEAD - «Candyman»

Poet'anarquista

O DOCEIRO

Venham todas as mulheres bonitas, com seu cabelo solto
Abram suas janelas porque o doceiro está na cidade
Venham garotos e apostem, rolem aqueles ossos sorridentes
Sete sucede onze, garotos eu levarei seu dinheiro pra casa

Vejam, vejam o doceiro
Aqui está ele e ele está indo de novo
Linda moça até não tem amigo
O doceiro aparece por aqui de novo, por aqui de novo

Eu vim de Memphis onde eu aprendi a cantar música popular
Quando eu voltar para Memphis serei o mais pequeno homem vivo
Bom dia Sr. Benson, eu vejo que está fazendo bem
Se eu tivesse uma pistola eu explodiria você directo para o inferno.

Vejam, vejam o doceiro
Aqui está ele e ele está indo de novo
Linda moça até não tem amigo
O doceiro aparecer por aqui de novo, por aqui de novo.

Vamos garotos e apostem o que vocês tiverem em mente
Se vocês têm um dólar garotos, deixem na linha
Me deem minha guitarra velha, e passem o whiskey
Vocês não vão contar para todo o mundo que encontraram o doceiro na cidade

Vejam, vejam o doceiro
Aqui está ele e ele está indo de novo
Linda moça até não tem amigo
O doceiro aparecer por aqui de novo, por aqui de novo.

Grateful Dead
Banda Norte-Americana

OUTROS CONTOS

«O Suave Milagre», por Eça de Queiroz.

«O Suave Milagre»
Conto de Eça de Queiroz

1072- «O SUAVE MILAGRE»

Ora entre Enganin e Cesareia, num casebre desgarrado, sumido na prega de um cerro, vivia a esse tempo uma viúva, mais desgraçada mulher que todas as mulheres de Israel. O seu filhinho único, todo aleijado, passara do magro peito a que ele o criara para os farrapos da enxerga apodrecida, onde jazera, sete anos passados, mirrando e gemendo. Também a ela a doença a engelhara dentro dos trapos nunca mudados, mais escura e torcida que uma cepa arrancada. E, sobre ambos, espessamente a miséria cresceu como bolor sobre cacos perdidos num ermo. Até na lâmpada de barro vermelho secara há muito o azeite. Dentro da arca pintada não restava um grão ou côdea. No Estio, sem pasto, a cabra morrera. Depois, no quinteiro, secara a figueira. Tão longe do povoado, nunca esmola de pão ou mel entrava o portal. E só ervas apanhadas nas fendas das rochas, cozidas sem sal, nutriam aquelas criaturas de Deus na Terra Escolhida, onde até às aves maléficas sobrava o sustento!

Um dia um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a mãe amargurada, e um momento sentado na pedra da lareira, coçando as feridas das pernas, contou dessa grande esperança dos tristes, esse rabi que aparecera na Galileia, e de um pão no mesmo cesto fazia sete, e amava todas as criancinhas, e enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres um grande e luminoso reino, de abundância maior que a corte de Salomão. A mulher escutava, com os olhos famintos. E esse doce rabi, esperança dos tristes, onde se encontrava? O mendigo suspirou. Ah esse doce rabi! quantos o desejavam, que de desesperançavam! A sua fama andava por sobre toda a Judeia, como o sol que até por qualquer velho muro se estende e se goza; mas para enxergar a claridade do seu rosto, só aqueles ditosos que o seu desejo escolhia. Obed, tão rico, mandara os servos por toda a Galileia para que procurassem Jesus, o chamassem com promessas a Enganim; Sétimo, tão soberano, destacara os seus soldados até à costa do mar, para que buscassem Jesus, o conduzissem, por seu mando, a Cesareia. Errando, esmolando por tantas estradas, ele topara os servos de Obed, depois os legionários de Sétimo. E todos voltavam, como derrotados, com as sandálias rotas, sem ter descoberto em que mata ou cidade, em que toca ou palácio, se escondia Jesus.

A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordão, desceu pelo duro trilho, entre a urze e a rocha. A mãe retomou o seu canto, a mãe mais vergada, mais abandonada. E então o filhinho, num murmúrio mais débil que o roçar duma asa, pediu à mãe que lhe trouxesse esse rabi que amava as criancinhas, ainda as mais pobres, sarava os males, ainda os mais antigos. A mãe apertou a cabeça engelhada: - Oh filho! e como queres que te deixe, e me meta aos caminhos, à procura do rabi da Galileia? Obed é rico e tem servos, e debalde buscaram Jesus, por areais e colinas, desde Chorazim até ao país de Moab. Sétimo é forte e tem soldados, e debalde correram por Jesus, desde Hébron até ao mar! Como queres que te deixe? Jesus anda por muito longe e nossa dor mora connosco, dentro destas paredes e dentro delas nos prende. E mesmo que o encontrasse, como convenceria eu o rabi tão desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a que descesse através das cidades até este ermo, para sarar um entrevadinho tão pobre, sobre enxerga tão rota?

A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou: - Oh mãe! Jesus ama todos os pequeninos. E eu ainda tão pequeno, e com um mal tão pesado, e que tanto queria sarar! E a mãe, em soluços: - Oh meu filho como te posso deixar! Longas são as estradas da Galileia, e curta a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado, e me apontaria a morada do doce rabi. Oh filho! Talvez Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O Céu o trouxe, o Céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes.

De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou: - Mãe, eu queria ver Jesus... E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança: - Aqui estou.

Eça de Queiroz

terça-feira, 15 de agosto de 2017

SÁTIRA...

Alta Tensão
Sátira...

«ALTA TENSÃO»

- Dizem os maldizentes
Que existe tensão
Na nossa relação…
Confirmas, ou desmentes?
- Desminto essas mentes,
Eu cá não sinto nada…
- Aperta aqui, camarada,
Eu também nada sinto,
O que dizem, desminto...
- A alta tensão é tramada!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

DEEP PURPLE - «Smoke On The Water»

Poet'anarquista

FUMO SOBRE A ÁGUA

Saímos todos para Montreux
Nas margens do Lago Genebra
Para gravarmos um disco (com um estúdio móvel)
Não tivemos muito tempo

Frank Zappa e The Mothers
Estavam lá no melhor lugar
Mas um estúpido com uma pistola sinalizadora
Incendiou o local até ao chão

Fumo sobre as águas, é fogo no céu
Fumo sobre as águas

Eles queimaram totalmente a casa de jogos
A casa ruiu com um som terrível
Funky Claude correu pra todo lado
Tirando as crianças do local

Quando tudo terminou
Tivemos que procurar outro lugar
Mas o tempo Suíço estava se esgotando
Parecia que perderíamos a corrida

Fumo sobre as águas, é fogo no céu
Fumo sobre as águas

Terminamos no Grand Hotel
Estava vazio, frio e desprotegido
Mas com o camião dos Rolling Stones lá fora
Fazendo nossa música ali

Com algumas luzes vermelhas e algumas camas velhas
Fizemos um lugar para suar
Não importa o que ganharmos com isso
Eu sei que nunca esqueceremos

Fumo sobre as águas, é fogo no céu
Fumo sobre as águas

Deep Purple
Banda Britânica

OUTROS CONTOS

«Fim», conto poético por José Agostinho Baptista.

«Fim»
Poema de José Agostinho Baptista

1071- «FIM» 

faz-se tarde
e eu deixei de esperar-te.

todos os portos se fecham sobre mim
e a floresta adensa-se.

nenhuma clareira se abre à passagem dos
animais e do homem antigo.

são 4 horas na manhã de todos os relógios.

José Agostinho Baptista

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

DIRE STRAITS - «Water Of Love»

Poet'anarquista

ÁGUA DO AMOR

Na pressão e na escassez de um longo dia quente
Perdido e solitário todo dia
Andando nas planícies ao redor de meu alto céu
Eu preciso de um pouco de água do amor

Eu tinha estado tão longe e solitário e meu coração sente dor
Chorando à toa por uma chuva aliviante
Eu acredito que eu o tinha feito o bastante
Eu preciso de um pouco da água do amor

Água do amor profunda no chão
Não há água aqui para ser encontrada
Algum dia, Baby, quando o rio correr livremente...
Irá transportar a água do amor para mim

Há um pássaro sentado acima de uma árvore
Esperando por mim para morrer
Se eu não conseguir alguma água rapidamente
Eu estarei morrendo e indo à tarde

Água do amor profunda no chão
Não há água aqui para ser encontrada
Algum dia, Baby, quando o rio correr livremente...
Irá transportar a água do amor para mim

Uma vez eu tinha uma mulher, eu posso gritar por conta própria,
Uma vez eu tinha uma mulher, agora ela foi embora,
Uma vez aqui tinha um rio, agora há uma pedra,
Você sabe, é prejudicial neste tempo em que você está vivendo sozinha.

Água do amor profunda no chão
Não há água aqui para ser encontrada
Algum dia, Baby, quando o rio correr livremente...
Irá transportar a água do amor para mim

Dire Straits
Banda Britânica

«COISAS QUE ACONTECEM»

Coisas que Acontecem
Mia, a Mourisca

«COISAS QUE ACONTECEM»

Sepultei a gata Mia
Debaixo dos sobreiros,
São bons companheiros
De noite e de dia.
Acreditar não queria
Quando lá voltei,
A Mia encontrei 
Fora da sepultura…
Com tristeza e amargura,
Segunda vez a enterrei.

Manel d’ Sousa

SÁTIRA...

Causa Efeito
Sátira...

«CAUSA EFEITO»

- Caros portugueses…
Já estou habituado
A não ficar calado
Demasiadas vezes…
Malditos dias trezes!
- Epá, deixa ver o jogo,
Esquece lá o fogo
Que o Porto marcou…
- Quem primeiro falou
É grande demagogo!!

POETA

OUTROS CONTOS

«Esperança», conto poético por Czeslaw Milosz.

«Esperança»
Poema de Czeslaw Milosz

1070- «ESPERANÇA»

Esperança surge, quando se acredita
Que a Terra não é um sonho, mas um corpo vivo,
Que não mentem o ouvido, o tacto, a visão
E que todas as coisas que aqui conhecias
São como um jardim visto do portão.

Entrar lá não se pode. Mas ele existe com rigor.
Se melhor olhássemos e com mais sabedoria,
No jardim do mundo uma nova flor
E mais do que uma estrela se avistaria.
Há quem diga que os olhos nos iludem
E que nada existe, apenas aparenta,
Mas justamente esses não têm esperança.
Pensar que ao virar as costas
O mundo desaparecerá de repente
Como que roubado por um delinquente.

Czeslaw Milosz

SÁTIRA...

Portugal a Arder
Sátira...

«PORTUGAL A ARDER»

- Afinal tinhas razão…
Portugal um belo país,
Férias a arder de raiz,
Que rica combustão!
- Eu disse, meu irmão…
Mais ainda vai aquecer
Com o que resta arder
Neste inferno terreno.
- Um país tão pequeno
Pode até desaparecer...?

POETA

sábado, 12 de agosto de 2017

OUTROS CONTOS

«Última Estória», conto poético por Ruy Duarte Carvalho.

«Última Estória»
Serpente Arco-Íris, Ungut

1069- «ÚLTIMA ESTÓRIA»

I

buscou assento na pedra
e olhou para dentro da fresta
donde a torrente saía
e a serpente sairia.

fez da laje a cama quente
para o seu coro quente e liso
na pele da pedra a lisura
de outras antigas entregas.

ajeitou-se para dormir
fechou-se a noite em seu sono:
no alto a lua propícia
ao tempo que está para vir.

luz da lua:
deus a muda
ou deusa muda?

II

em cada nascente tem
uma serpente que a guarda
que aguarda a noite e
interrompe

o permanente labor
de a libertar de areais
para vir alongar o corpo
junto ao corpo de um rapaz
que sonha que é virgem-fêmea
preparada para se dar.

guarda de águas:
quem a guarda
quem a aguarda?

III

e a serpente interrompeu
o seu labor social
para vir enlaçar o corpo
com a fêmea que a lua dava.

a longa noite das águas:
corpo-a-corpo, línguas mansas
no coração e no ventre.
águas há que só se alongam
no tempo que as luas dão.

IV

e quando a lua sumiu
e a bruma se fez no frio
dos lençóis da madrugada
devolveu-se aos areais
a serpente que os limpava
e o rapaz voltou para a casa
que era a sua e abandonara.

V

mãe das águas para vaza-las
nos olhos que a sede vaza
semeava o verde à volta
do seu corpo transmudado.

levava em si a nascente
que a serpente lhe gerara:
verde virava a secura
em que o seu olhar poisava.

VI

saiu pelo mundo a repor
as luas no tempo delas:
a da seiva, a da semente
a que faz tremer as folhas
a das raízes poupadas
a da flor
(que é a do fruto)
e a dos caminhos fechados
pelas searas sazonadas.

a da última verdura
e a da marcha da secura
a do vento que é menor
e a do vento que é maior
a da pequena carência
e a dos pastos já queimados.

depois de novo a da seiva
a da semente e as mais
todas no tempo que é justo
e que assegura a fartura
do tempo que há para cumprir.

VII

cumpriu tudo até ao tempo
da lua que se acrescenta
ao tempo
para indicar
o tempo que está para vir.

e então mais cedo que a estrela
que acompanha o caçador
saiu de novo da casa
que era a sua e a que voltara

VIII

e num lugar que era seco
entrou numa fenda aberta
donde a água não brotava
e ali fez-se uma nascente.

era agora uma serpente
que velava pelas águas
de uma torrente nascida
como as outras mais antigas.

guarda de águas:
quem a guarda
quem a aguarda?

IX

e quando o mundo secou
de novo a pedir alguém
que fecundasse o luar
com as águas do seu olhar
sentiu a nova serpente
que na laje lisa e quente
da nascente que guardava
um rapaz adormecera
fatigado de luar.

no alto a lua propícia
do tempo que está par vir.

X

e a serpente interrompeu
o seu labor social
para vir alongar o corpo
junto ao corpo do rapaz.

a longa noite das línguas:
águas há que só se alongam
no tempo que as luas dão.

luz da lua:
deus a muda
ou deusa muda?

XI

e quando a lua sumiu
e a bruma se fez no frio
dos lençóis da madrugada
o rapaz voltou para a casa
que era a sua e abandonara.

verde virava a secura
em que o seu olhar poisava.

Ruy Duarte Carvalho

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

SÁTIRA...

Vira o Disco
Sátira...

«VIRA O DISCO»

Sobre a ‘précura’
Senhor jornalista…
Levanto a crista,
Estou com secura.
A vida é dura
O ‘cérabro’ parou,
O disco riscou
Todo o trabalho…
‘Aformatar’ o atalho
Que o ‘Benfa’ gamou.

POETA

OUTROS CONTOS

«Retrato de uma Londrina», por Virginia Woolf.

«Retrato de uma Londrina»
Virginia Woolf/ Roger Eliot

1068- «RETRATO DE UMA LONDRINA»

Casas particulares em Londres têm tendência a serem muito parecidas. A porta se abre para um vestíbulo escuro, ergue-se uma escada estreita; do patamar superior abre-se uma dupla sala de estar e nessa dupla sala de estar vê-se dois sofás, um de cada lado de um fogo crepitante, seis poltronas e três compridas janelas dando para a rua. Sempre é matéria de considerável conjectura o que acontece na segunda metade da sala dos fundos debruçando-se para os jardins de outras casas. Mas é com a sala de estar da frente que estamos preocupados; pois era ali que mrs. Crowe sentava-se sempre numa poltrona junto ao fogo; era ali que sua existência transcorria; era ali que ela servia o chá.

Que tenha nascido no campo, embora estranho, parece ser um fato; que ela às vezes deixasse a cidade, naquelas semanas de verão em que Londres não é Londres, também é verdade. Mas para onde ia ou o que fazia quando saía de Londres, quando sua poltrona estava vazia, sua lareira apagada e a mesa desfeita, ninguém sabia ou podia imaginar. Pois conceber mrs. Crowe com seu vestido preto, seu véu e seu chapéu caminhando num campo de nabos ou subindo um monte de pasto está além da mais desvairada imaginação.

Ali, junto à lareira no inverno ou à janela no verão, sentara-se ela por 60 anos — mas não sozinha. Havia sempre alguém na poltrona oposta, fazendo uma visita. E antes que o primeiro visitante estivesse sentado por dez minutos, a porta sempre se abria e a criada Maria, de olhos e dentes proeminentes, que por 60 anos abrira a porta, abria-a mais uma vez e anunciava um segundo visitante; e a seguir um terceiro, e logo depois um quarto.

Nunca se soube de um tête-à-tête com mrs. Crowe. Ela não gostava de tête-à-têtes. Era uma peculiaridade que compartilhava com muitas anfitriãs, a de nunca ser especialmente íntima de alguém. Por exemplo, havia sempre um homem idoso no canto junto ao armário; e que parecia tanto fazer parte daquela admirável mobília do século XVIII quanto seus pegadores de bronze. Mas mrs. Crowe sempre se dirigia a ele como mr. Graham; nunca John, nunca William; embora, às vezes, o chamasse de “caro mr. Graham” como para sublinhar que já o conhecia havia 60 anos.

A verdade é que não desejava intimidade, desejava conversa. A intimidade é um dos caminhos para o silêncio, e mrs. Crowe abominava o silêncio. Era preciso haver conversa, e que esta fosse geral e que abarcasse tudo. Não devia ser profunda demais nem inteligente demais, pois se progredisse muito nessas direções alguém certamente se sentiria de fora, e ficaria sentado ali, balançando a xícara de chá, sem dizer nada.

Portanto, a sala de estar de mrs. Crowe tinha pouco em comum com os celebrados salões dos memorialistas. Gente inteligente ia lá com frequência — juízes, médicos, membros do parlamento, escritores, músicos, viajantes, jogadores de pólo, atores e completos anónimos —mas se alguém dissesse uma coisa brilhante isto era sentido quase como uma gafe, um acidente que se ignorava, como um acesso de espirros ou alguma catástrofe com um bolinho. A conversa de que mrs. Crowe gostava e que a inspirava era uma versão glorificada do mexerico da cidade. A cidade era Londres, e o mexerico era sobre a vida de Londres. Mas o grande dom de mrs. Crowe consistia em tornar a grande metrópole tão pequena quanto uma aldeia, com uma igreja, um solar e 25 chalés. Mrs. Crowe tinha informação de primeira mão sobre cada peça, cada exposição de pintura, cada julgamento, cada caso de divórcio. Ela sabia quem estava casando, quem estava morrendo, quem estava na cidade e quem estava fora. Ela mencionava o fato de que acabara de ver o carro de lady Umphleby passar, e arriscava o palpite de que ia visitar a filha cujo bebê nascera na noite anterior, exatamente como uma mulher da aldeia fala sobre a esposa do juiz de paz dirigindo até a estação para receber mr. John, que estaria voltando da cidade.

E enquanto mrs. Crowe fazia essas observações pelos últimos 50 anos ou algo assim, adquiria um surpreendente arquivo sobre a vida de outras pessoas. Quando mr. Smedley, por exemplo, disse que sua filha estava noiva de Arthur Beecham, mrs. Crowe observou imediatamente que nesse caso ela seria uma prima em terceiro grau de mrs. Pirebrace, e num certo sentido sobrinha de mrs. Burns, pelo primeiro casamento com mr. Minchin de Blackwater Grange. Mas mrs. Crowe não era nem um pouco esnobe. Era apenas uma cultivadora de relações; e sua surpreendente habilidade nesse campo servia para dar um caráter familiar e uma personalidade doméstica às suas colheitas, pois muitas pessoas se espantariam de serem primos em vigésimo grau, se soubessem disso.

Portanto, ser admitido na casa de mrs. Crowe significava tornar-se membro de um clube, e o pagamento exigido era a contribuição com um número de tópicos de mexerico por ano. O primeiro pensamento de muita gente quando a casa incendiava ou os canos rebentavam ou a criada fugia com o mordomo deve ter sido: “Vou correr até mrs. Crowe e lhe contar isso.” Mas nisso também as distinções precisavam ser observadas. Certas pessoas tinham o direito de aparecer na hora do almoço; outras, em maior número, podiam ir entre cinco e sete horas. A classe que tinha o privilégio de jantar com mrs. Crowe era pequena. Talvez somente mr. Graham e mrs. Burke realmente jantassem com ela, pois mrs. Crowe não era rica. Seu vestido preto estava um tantinho gasto; seu broche de diamante era sempre o mesmo broche de diamante. Sua refeição favorita era chá, porque a mesa do chá pode ser suprida economicamente, e há uma elasticidade no chá que combinava com o temperamento gregário de mrs. Crowe. Mas fosse almoço ou chá, a refeição mostrava um caráter distinto, exatamente como um vestido ou a jóia que usava combinavam com ela à perfeição, traziam em si uma moda própria. Haveria um bolo especial, um pudim especial, algo peculiar à casa e tanto parte dela quanto Maria, a velha criada, ou mr. Graham, o velho amigo, ou o velho chintz da poltrona, ou o velho carpete no assoalho.

É verdade que mrs. Crowe deve ter saído algumas vezes, convidada para almoços e chás de outras pessoas. Mas em sociedade ela parecia furtiva, fragmentária e incompleta, como se tivesse meramente passado para uma espiada no casamento ou na reunião noturna ou no funeral, a fim de recolher as migalhas de notícias de que precisava para completar seu próprio estoque. Por isso, era raramente induzida a sentar-se; estava sempre voando. Parecia deslocada entre as mesas e cadeiras dos outros; precisava ter seus próprios chintzes, seu próprio armário e seu próprio mr. Graham junto a ele a fim de ser completamente ela própria. À medida que os anos foram passando, as pequenas incursões no mundo exterior praticamente cessaram. Mrs. Crowe construiu seu ninho de modo tão compacto e completo que o mundo exterior não tinha uma pena ou um graveto a lhe acrescentar. Além disso, seus próprios camaradas lhe eram tão fiéis que podia confiar neles para transmitir qualquer noticiazinha que ela devesse acrescentar à sua coleção. Era desnecessário que abandonasse a própria poltrona junto ao fogo no inverno, ou junto à janela no verão. E com a passagem dos anos seu conhecimento não se tornou mais profundo — a profundidade não era a linha de nossa anfitriã — e sim mais redondo e completo. Deste modo, se uma nova peça fazia um grande sucesso, mrs. Crowe conseguia no dia seguinte não só registrar o fato com uma pitada de mexerico divertido dos bastidores, como também podia remeter-se a outras estréias, nos anos 1880, 1890, e descrever o que Ellen Terry usara, o que Duse tinha feito, o que o querido mr. Henry James comentara — nada muito notável talvez; mas enquanto falava, era como se todas as páginas da vida de Londres nos últimos 50 anos fossem levemente folheadas para sua diversão. Havia muitas, e suas ilustrações eram vivas e brilhantes, e de pessoas famosas; mas mrs. Crowe de modo nenhum vivia no passado, de modo nenhum o exaltava acima do presente.

Na verdade, era sempre a última página, o momento presente que mais importava. O delicioso de Londres era que sempre dava ao indivíduo algo novo para observar, algo fresco sobre o que falar. Era preciso apenas manter os olhos abertos e sentar em sua própria poltrona das cinco às sete horas todos os dias da semana. Enquanto mrs. Crowe sentava-se com os convidados em torno de si, dava de tempos em tempos uma rápida olhadela de pássaro por sobre o ombro para a janela, como se tivesse meio olho na rua, meio ouvido para os carros e ônibus e os gritos dos jornaleiros lá fora. Ora, algo novo podia estar acontecendo naquele mesmo instante. Não se podia passar tempo demais no passado: não se devia dar uma atenção total ao presente.

Nada era mais característico e talvez um pouco desconcertante do que a ansiedade com a qual mrs. Crowe erguia os olhos e interrompia a frase no meio quando a porta sempre se abria e Maria, que se tornara muito corpulenta e um pouco surda, anunciava uma nova visita. Quem estaria prestes a entrar? O que teria a acrescenta à conversa? Mas sua habilidade em extrair fosse o que fosse que poderiam oferecer e sua destreza em atirar a notícia no cotidiano, eram tais que nenhum dano ocorria; e fazia parte de seu peculiar triunfo que a porta jamais se abrisse com demasiada freqüência; o círculo nunca ultrapassava sua possibilidade de controle.

Assim, para conhecer Londres não apenas como um espetáculo deslumbrante, um mercado, uma corte, uma colméia de indústria, mas como um lugar onde pessoas se encontram, conversam, riem, casam-se e morrem, pintam, escrevem e atuam, mandam e legislam, era essencial conhecer mrs. Crowe. Era em sua sala de estar que os inúmeros fragmentos da vasta metrópole pareciam juntar-se num todo animado, compreensível, divertido e agradável. Viajantes ausentes por anos, homens esgotados e ressecados pelo sol, recém-chegados da Índia ou da África, de remotas viagens e aventuras entre selvagens e tigres, iam direto para a casinha na rua quieta para serem conduzidos novamente ao coração da civilização numa única pernada. Mas nem a própria Londres podia manter mrs. Crowe viva para sempre. E é fato que um dia ela já não estava sentada na poltrona junto ao fogo quando o relógio bateu cinco horas; Maria não abriu a porta; mr. Graham separara-se do armário. Mrs. Crowe está morta; e Londres, embora Londres ainda exista, jamais será de novo a mesma cidade.

Virginia Woolf

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

IAN ANDERSON - «Pebbles Instrumental»

Poet'anarquista

Ian Anderson
Flautista e Compositor Britânico

SÁTIRA...

O Mundo em Cuecas
Sátira...

«O MUNDO EM CUECAS»

Parte II

- Este bacamarte inteiriço
É muito maior que a tua…
- A minha por vezes míngua,
Mas faz o mesmo serviço!
- Epá, tu deixa-te disso…
A tua quase não se vê!
- Queres saber porquê?...
A qualidade do material
Pró efeito é proporcional…
O resultado, ninguém prevê!

POETA

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

DMITRI SHOSTAKOVICH 
«The Gadfly, Op 97»

Poet'anarquista

Dmitri Shostakovich
Compositor Russo

OUTROS CONTOS

«À Minha Mãe», conto poético por Mahmud Darwich.

«À Minha Mãe»
Mãe Preta/ Lasar Segall

1067- «À MINHA MÃE»

Tenho saudades do pão da minha mãe,
Do café da minha mãe,
Do carinho da minha mãe...
Estou a crescer,
De dia para dia,
E amo a vida, porque
Se morresse,
Teria vergonha das lágrimas da minha mãe!

Se um dia voltar, faz de mim
Uma sombrinha para as tuas pálpebras.
Cobre os meus ossos com a erva
Baptizada sob os teus pés inocentes.
Ata-me
Com uma mecha dos teus cabelos,
Um fio caído da orla do teu vestido...
E serei, talvez, um deus,
Talvez um deus,
Se tocar o teu coração!

Se voltar, esconde-me,
Lenha, na tua lareira.
E pendura-me,
Corda da roupa, no terraço da tua casa.
Falta-me o ânimo
Sem a tua oração diária.
Envelheci. Faz renascer as estrelas da infância
E partilharei com os filhos das aves,
O caminho do regresso...
Ao ninho onde me esperas!

Mahmud Darwich

terça-feira, 8 de agosto de 2017

SÁTIRA...

O Especialista
Sátira...

«O ESPECIALISTA»

- O negócio pode-se dar
Nesta eleição autárquica…
Campanha bombástica
Com 9 milhões pra gastar!
- Dinheiro pode não chegar…
Às vezes até estraga (?)
- Sempre a rogar praga…
Que sugeres, laranja do chão?
- Respondo com outra questão:
Conheces o bruxo Nhaga?

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

IRON MAIDEN - «Empire of the Clouds»

Poet'anarquista

IMPÉRIO DAS NUVENS

Para cavalgar a tempestade para o império das nuvens
Para cavalgar a tempestade eles subiram
A bordo de seu fantasma prateado
Para cavalgar a tempestade até um reino que virá
Para cavalgar a tempestade, e dane-se o resto
Esquecimento

Realeza e dignitários, conhaque e charutos
Gigante dama cinzenta dos céus
Você os acolhe a todos em seus braços
A milionésima chance, eles riram
Para derrubar o dirigível de Sua Majestade
"Para a Índia", eles dizem, "Tapete mágico, flutue"
Em um dia fatal de Outubro

A névoa nas árvores
As pedras suam com o orvalho
O nascer do sol, vermelho antes do azul
Pendurado no mastro, esperando pelo comando
A aeronave de Sua Majestade, o R101

É a maior embarcação feita pelo homem
Um gigante dos céus
Para todos os incrédulos, o Titanic se encaixa dentro
Rufem os tambores, apertem sua pele de lona, prateada no sol
Nunca testada com a fúria, com a surra que estava por vir
A fúria que estava por vir

Reunidos na tristeza
Uma tempestade se levantando a oeste
O timoneiro observou
Em seu equipamento de previsão do tempo

Temos que ir agora
Temos que arriscar nossa chance com o destino
Temos que ir agora
Por um político, ele não pode se atrasar

A tripulação da nave, está acordada por trinta horas de trabalho seguido
Mas a nave está em sua espinha dorsal
Cada tendão, cada polegada
Ela nunca voou a toda velocidade, um teste nunca realizado
Sua frágil cobertura externa, seu Aquiles se tornaria
Um Aquiles que ainda viria

Marinheiros do céu, uma guarnição endurecida
Leais ao rei e ao credo de uma aeronave
Os motores funcionam, o telégrafo soa
Soltem as cordas que nos prendem ao chão

Disse o timoneiro:
"Senhor, ela é pesada, ela nunca fará este voo"
Disse o capitão:
"Dane-se a carga, estaremos no nosso caminho esta noite"
As pessoas em terra exclamaram, maravilhadas
Enquanto ela se afastava do mastro
Batizando-os em sua água do seu lastro da frente até trás
Agora, ela escorrega para dentro de nosso passado

Lutando contra o vento enquanto ele te assola
Sentindo os motores a diesel que te empurram para frente
Vendo o canal abaixo de você
Mais e mais devagar de noite
As luzes estão passando abaixo de você
O norte da França dormindo em suas camas
A tempestade está rugindo ao seu redor
"Um milhão para uma", é o que ele disse

O ceifador está parado ao seu lado
Com sua foice, corta até os ossos
O pânico de tomar uma decisão
Homens experientes dormem em seus túmulos
Sua cobertura está rasgada e ela está se afogando
A chuva está inundando o casco
Sangrando até a morte e ela está caindo
O gás flutuador está se esgotando

"Estamos perdidos, companheiros", veio o lamento
Mergulhando numa curva, vindos do céu
Três mil cavalos silenciaram-se, enquanto a nave começava a morrer
Os sinalizadores para guiar seu caminho, ascenderam-se no fim
O império das nuvens
Apenas cinzas em nosso passado, apenas cinzas no final

Aqui jazem os sonhos, enquanto estou parado embaixo do sol
Na terra onde eles foram construídos e o motores realmente funcionaram
Para a lua e para as estrelas
Agora, o que foi que nós fizemos?
Oh, os sonhadores podem ter morrido, mas os sonhos continuam vivos
Os sonhos continuam vivos, os sonhos continuam vivos

Agora uma sombra na colina
O anjo do leste
O império das nuvens
Pode descansar em paz
E em um cemitério pequeno, na igreja
Deitados de frente para o mastro
Quarenta e oito almas
Que vieram a morrer na França

Iron Maiden
Banda Britânica

OUTROS CONTOS

«Seja este o Verso» e «Legado», contos poéticos por Philip Larkin.

«Seja este o Verso» e «Legado»
Poemas de Philip Larkin

1066- «SEJA ESTE O VERSO»

  Eles te fodem, teus queridos pais.
     É sem querer, só que a verdade é esta —
  Te enchem das culpas que tiveram mais
     E dão, só pra você, uma dose extra.

  Mas eles se foderam com uns néscios
     De paletós e de chapéus à antiga,
  Durante o dia, piegas e perversos,
     À noite, se esganando numa briga.

Philip Larkin

1067- «LEGADO»

Legamos dor aos nossos semelhantes.
     Como um recife, ela se crava fundo.
  Por isso, saia dessa o quanto antes,
     E nunca ponha filhos neste mundo.

Philip Larkin

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

SÁTIRA...

Bom Faro
Sátira...

«BOM FARO»

- ‘Tu teres’ duma vez
‘Partodas’ t' habituares,
Sempre a snifares
O ‘premero’ dos três.
- Mister, não falo inglês…
Pode descomplicar?
- Quero-te a farejar
‘Premanentemente’,
Quem vai à frente
No ‘premero’ lugar!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

CAETANO VELOSO - «O Quereres»

Poet'anarquista

O QUERERES

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e é de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim

Caetano Veloso
Músico, Cantor e Compositor Brasileiro

OUTROS CONTOS

«Poema da Voz que Escuta», conto poético por Políbio Gomes dos Santos.

«Poema da Voz que Escuta»
Poema de Políbio dos Santos

1065- «POEMA DA VOZ QUE ESCUTA»

Chamam-me lá em baixo. 
São as coisas que não puderam decorar-me: 
As que ficaram a mirar-me longamente 
E não acreditaram; 
As que sem coração, no relâmpago do grito, 
Não puderam colher-me. 
Chamam-me lá em baixo, 
Quase ao nível do mar, quase à beira do mar, 
Onde a multidão formiga 
Sem saber nadar. 
Chamam-me lá em baixo 
Onde tudo é vigoroso e opaco pelo dia adiante 
E transparente e desgraçado e vil 
Quando a noite vem, criança distraída, 
Que debilmente apaga os traços brancos 
Deste quadro negro - a Vida. 
Chamam-me lá em baixo: 
Voz de coisas, voz de luta. 
É uma voz que estala e mansamente cala 
E me escuta. 

Políbio dos Santos