quarta-feira, 18 de abril de 2018

OUTROS CONTOS

«O Menino que Escrevia Versos», por Mia Couto.

«O Menino que Escrevia Versos»
Outros Contos...

1138- «O MENINO QUE ESCREVIA VERSOS»

De que vale ter voz
se só quando não falo é que me entendem?
De que vale acordar
se o que vivo é menos do que o que sonhei?

(VERSOS DO MENINO QUE FAZIA VERSOS)

— Ele escreve versos!

Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha.

— Há antecedentes na família?

— Desculpe doutor?

O médico destrocou-se em tintins. Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava bem, nunca lhe batera, mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias:

— Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol.

Ela hoje até se comove com a comparação: perfume de igual qualidade qual outra mulher ousa sequer sonhar? Pobres que fossem esses dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. Para ele, não fora senão período de rodagem. O filho fora confeccionado nesses namoros de unha suja, restos de combustível manchando o lençol. E oleosas  confissões de amor.

Tudo corria sem mais, a oficina mal dava para o pão e para a escola do miúdo. Mas eis que começaram a aparecer, pelos recantos da casa, papéis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejo, a autoria do feito.

— São meus versos, sim.

O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas, se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se passava: mariquice intelectual? Ou carburador entupido, avarias dessas que a vida do homem se queda em ponto morto?

Dona Serafina defendeu o filho e os estudos. O pai, conformado, exigiu: então, ele que fosse examinado.

— O médico que faça revisão geral, parte mecânica, parte eléctrica.

Queria tudo. Que se afinasse o sangue, calibrasse os pulmões e, sobretudo, lhe  espreitassem o nível do óleo na figadeira. Houvesse que pagar por sobressalentes, não importava. O que urgia era pôr cobro àquela vergonha familiar.

Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupança de tempo. Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino:

— Dói-te alguma coisa?

—Dói-me a vida, doutor.

O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: Está a ver, doutor? Está ver? O médico voltou a erguer os olhos e a enfrentar o miúdo:

— E o que fazes quando te assaltam essas dores?

— O que melhor sei fazer, excelência.
— E o que é?

— É sonhar.

Serafina voltou à carga e desferiu uma chapada na nuca do filho. Não lembrava o que o pai lhe dissera sobre os sonhos? Que fosse sonhar longe! Mas o filho reagiu: longe, porquê? Perto, o sonho aleijaria alguém? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu-se, acarinhando o braço da mãe.

O médico estranhou o miúdo. Custava a crer, visto a idade. Mas o moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele, modéstia apartada, inventara sonhos desses que já nem há, só no antigamente, coisa de bradar à terra. Exemplificaria, para melhor crença. Mas nem chegou a começar. O doutor o interrompeu:

— Não tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhuma clinica psiquiátrica.

A mãe, em desespero, pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho dos versos. A ver se ali catava o motivo de tão grave distúrbio. Contrafeito, o médico aceitou e guardou o manuscrito na gaveta. A mãe que viesse na próxima semana. E trouxesse o paciente.

Na semana seguinte, foram os últimos a ser atendidos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos? O menino não entendeu.

— Não continuas a escrever?

— Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida — disse, apontando um novo caderninho — quase a meio.

O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.

— Não temos dinheiro — fungou a mãe entre soluços.

— Não importa — respondeu o doutor.

Que ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo, na sua clínica, que o menino seria sujeito a devido tratamento. E assim se procedeu.

Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto onde está internado o menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração. E o médico, abreviando silêncios:

— Não pare, meu filho. Continue lendo...

Mia Couto

OUTROS CONTOS

«Criança Princesa», conto poético por Manuel Matias.

«Criança Princesa»
Princesinha

1137- «CRIANÇA PRINCESA»

Venha comigo Criança Princesa
Atravessar os céus da ante-manhã...
Segure minha mão selvagem.
Mostre seus sonhos escondidos
De choro por me ter deixado ir.

Venha até mim, livre de tristeza,
Através dum golpe de pura magia
Cantando na chuva quente de Março.

Manuel Matias

terça-feira, 17 de abril de 2018

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

PINK FLOYD
«Shine On You Crazy Diamond»

Poet'anarquista

CONTINUE BRILHANDO, SEU DIAMANTE LOUCO

Lembra quando você era novo?
Você brilhou como o sol
Continue brilhando, seu diamante louco
Agora há um olhar em seus olhos
Como buracos negros no céu
Continue brilhando, seu diamante louco

Você foi apanhado pelo fogo cruzado
Da infância e do estrelato
Fundido na brisa de aço
Venha, você alvo de risos distantes
Venha, seu desconhecido, sua lenda
Seu mártir, e brilhe!

Você alcançou o segredo cedo demais
Você chorou para a lua
Continue brilhando, seu diamante louco
Ameaçado pelas sombras da noite
E exposto a luz
Continue brilhando, seu diamante louco
Bem, você desgastou suas boas vindas

Com precisão aleatória
Cavalgou na brisa de aço
Venha, seu sonhador, seu visionário
Venha, seu pintor, seu flautista
Seu prisioneiro, e brilhe!

Ninguém sabe onde você está
Quão perto ou longe
Continue brilhando, seu diamante louco
Empilhe muitas camadas a mais
E estaremos nos unindo lá
Continue brilhando, seu diamante louco

E nós nos aqueceremos na sombra
Do triunfo de ontem
E velejaremos na brisa de aço
Venha, você menino, vencedor e perdedor
Venha, você minerador da verdade e da ilusão
E brilhe!

Pink Floyd
Banda Britânica

POEMA DE AIMÉ CÉSAIRE

A Palavra aos Abutres
Poema de Aimé Césaire

A PALAVRA AOS ABUTRES

Onde quando como de onde por que sim por que por que por que é que
as línguas mais celeradas não inventaram mais do que alguns ganchos
para pendurar ou suspender o destino.
Prendam este homem inocente. Todos de enganação.
Ele leva meu sangue em seus ombros. 
Ele leva meu sangue em seus sapatos.
Ele anuncia meu sangue em seu nariz. 
Morte aos contrabandistas. 
As fronteiras estão fechadas.

Nem os que se conhecem e nem os que se desconhecem todos.
Obrigado deus meu coração está mais seco que o Harmatã,[1] toda treva é minha presa.
Toda treva me é devida e toda bomba minha alegria.
Vós abutres em seus postos de rodopios e de bicar acima da floresta,
e tão longe quanto é a caverna cuja porta é um triângulo,
onde o guardião é um cão,
onde a vida é um cálice,
onde a virgem é uma aranha,
onde o rastro precioso é um lago 
que se destaca nos caminhos descendentes 
das tempestuosas nixes.[2]

Aimé Césaire

[1] Vento seco do Saara.
[2] Na mitologia Nórdica, espíritos que, imprevisíveis, ora fazem o bem, ora, o mal.

OUTROS CONTOS

«O Mistério da Palavra», Adolfo Simões Muller.

«O Mistério da Palavra»
Leitura/ Goya

1136- «O MISTÉRIO DA PALAVRA»

Porque será que uma palavra aflora
correspondendo logo ao nosso apelo,
com a medida justa, o justo emprego,
enquanto noutras vezes se demora
(rimmel, bâton, um jeito no cabelo…)
e chega em voo cego de morcego?

Porque será que uma palavra quase
vai buscar outra dentre a multidão,
e esta segunda, uma terceira e quarta,
e assim nasce de súbito, uma frase,
um belo verso, a quadra ou a canção,
a sentença de morte, a tua carta?

Porque será que uma palavra, impávida,
resiste aos séculos e fica jovem,
ou morre (cancro, enfarte, dor reumática),
enquanto outra, novinha, surge grávida,
e aos nove meses os filhinhos chovem
que é um louvar a Deus e à gramática?

Porque será que a rima atrai a rima,
e a rima nova é como o vinho novo
que salta e espuma e baila na garganta?
E outra rima! Outras rimas! A vindima
das palavras não pára… E, no renovo,
o poema é estrela que alumia e canta!

Porquê este mistério, Poesia?
És tal e qual a electricidade:
existe mas nem sempre a gente a vê.
Porque foges um ano e mais um dia
e voltas, alta noite, claridade?
Porquê? Porque será? Porquê? Porquê?

Adolfo Simões Muller

segunda-feira, 16 de abril de 2018

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

4 NON BLONDES - «What's Up?»

Poet'anarquista


O QUE ESTÁ ACONTECENDO?

25 anos e minha vida está parada
Estou tentando subir essa grande montanha da esperança
Para um destino

Eu compreendi rapidamente quando soube que deveria
Que o mundo era feito dessa
Fraternidade de homens
O que quer que isso signifique

E então eu choro às vezes
Quando estou deitada na cama
Só para me livrar disso tudo
Que está na minha cabeça
E estou me sentindo um tanto esquisita

E então eu acordo de manhã e piso lá fora
E respiro profundamente
E eu fico realmente bem
E eu grito do fundo dos meus pulmões
‘O que está acontecendo? ‘

E eu digo: Hey!
E digo: ‘hei, o que está havendo?’

E eu digo: Hey!
E digo: ‘hei, o que está havendo? ‘

Ooh, ooh ooh

E eu tento, oh meu Deus, eu tento
Eu tento todo o tempo nesta instituição

E eu oro oh meu Deus, eu oro
Eu oro todo dia
Por uma revolução

E então eu choro às vezes
Quando estou deitada na cama
Só para me livrar disso tudo
Que está na minha cabeça
E estou me sentindo um tanto esquisita

E então eu acordo de manhã e piso lá fora
E respiro profundamente
E eu fico realmente bem
E eu grito do fundo dos meus pulmões
‘O que está acontecendo? ‘

E eu digo: Hey! hey, hey hey hey
E digo: ‘hei, o que está havendo? ‘

25 anos e minha vida está parada
Estou tentando subir essa grande montanha da esperança
Para um destino
Imagem relacionada
4 Non Blondes/ Banda Norte-Americana

SÁTIRA...

O Lado Positivo
Sátira...

«O LADO POSITIVO»

- Tristes notícias Zé
Dos ataques na Síria,
A coisa pode ser séria…
Guerra, é o que é!
- Pé ante pé
Seja que Deus quiser,
O que for será, mulher!
- Vejo-te confortável
Neste mundo deplorável…
- Morto não paga aluguer (?)

POETA

OUTROS CONTOS

«A Dama do Leque», por Anatole France.

«A Dama do Leque»
Dama com Leque/ Picasso

1135- «A DAMA DO LEQUE»

Tchonang-Tsen, nascido em Sung, era letrado que levava sua sabedoria ao desprendimento mesmo de todas as coisas terrenas.

Uma manhã, quando errava, à aventura, pela encosta florida da montanha, viu-se, com surpresa no meio de um cemitério, onde, segundo os costumes do país, os mortos repousavam sob montículos de terra revolvida. O sábio meditou sobre o destino dos homens.

— Ah! — exclamou. — Eis aqui a encruzilhada onde terminam todos os caminhos da vida. Quando, uma vez, se tomou lugar na morada dos mortos, já não se pode volver à luz.

Enquanto assim divagava seu pensamento através das tumbas, ele, de repente, se achou ao lado de uma jovem senhora vestida de luto, quer dizer — trajando um amplo vestido branco de fazenda ordinária e sem costura. Sentada próximo a um túmulo, ela agitava um leque branco sobre a terra fresca de um montículo funerário.

Curioso por conhecer os motivos de um ato tão original, Tchomang-Tsen saudou-a amavelmente e perguntou-lhe:

— Permite-me, senhora, perguntar-lhe que pessoa repousa tumba e por que se dá ao exaustivo trabalho de abanar a terra que a cobre?

A dama continuou a agitar o leque. Ruborizou-se, baixou a cabeça e murmurou algumas palavras que o sábio não pôde ouvir. E repetiu a pergunta por várias, mas em vão.

Tchonang-Tsen afastou-se com sentimento. Achava-se inclinado a sondar móveis das acções humanas e particularmente as das mulheres. Estas lhe inspiravam uma curiosidade brincalhona, mas muito viva e sagaz... Prosseguiu lentamente no seu passeio, voltando a cabeça para ver ainda o leque que agitava o ar como a asa de uma e mariposa, quando, de súbito, uma velha a que não tinha visto, até então, lhe fez sinal para  a seguisse.

— Escutei-o fazer uma pergunta à minha ama e à qual ela não respondeu. Mas eu satisfarei a sua curiosidade.

Tchonang-Tsen tirou uma moeda da carteira e a velha falou assim:

— Esta senhora, é a senhora Lu, viúva de um letrado chamado Tao, que morreu ha quinze dias, depois de longa enfermidade, e aquela tumba é de seu marido. Ambos amavam-se carinhosamente. O senhor Tão não podia conformar-se em deixá-la só no mundo na flor da idade e em pleno esplendor de beleza. Essa ideia era-lhe intolerável. A senhora Lu chorava, à cabeceira da cama. Tomava os deuses como testemunha para assegurar-lhe que não lhe sobreviveria.

Mas o sr. Tão lhe disse:

— Senhora, não faça esse juramento.

— Ao menos — replicou ela — se estou condenada pelos génios a continuar a viver, saiba que não consentirei jamais em ser a mulher de qualquer outro homem e que não terei mais que um esposo como não tenho mais que uma alma.

Mas o senhor Tão lhe disse:

— Senhora, não faça esse juramento.

— Oh, senhor Tão, senhor Tão! Deixe-me ao menos jurar que durante cinco anos completos não tornarei a casar-me.

— Senhora, não faça esse juramento — disse o moribundo. — Jure somente que guardara fidelidade à minha memória apenas enquanto a terra não tiver secado sobre o meu túmulo.

A senhora Lu jurou solenemente e o bom do senhor Tão cerrou os olhos para não mais os abrir. O desespero da senhora Lu foi superior a quanto se possa imaginar. Lágrimas ardentes devoravam seus olhos. Com suas unhas pontiagudas lacerava suas faces de porcelana. Mas, tudo logo estancou. Três dias depois a tristeza da senhora Lu tornava se mais humana. Soube que um jovem discípulo do senhor Tão desejava apresentar-lhe seus sentimentos de pesar. Julgou, com razão, que não poderia escusar-se de recebê-lo. E recebeu-o suspirando. Esse moço era muito elegante e tinha bela figura. Falou-lhe um pouco do senhor Tao e muito dela. Disse-lhe que era encantadora e que muito a amava. Prometeu voltar. Esperando-o, a senhora Lu, sentada à beira da tumba de seu marido, onde o senhor a viu, passa todo o dia a fazer secar a terra do sepulcro com o vento de seu leque.

Quando a velha terminou seu relato, o sábio Tchonang-Tsen pensou:

— A mocidade é curta. Alem do mais a senhora Lu e uma pessoa honesta que não quer trair seu juramento. É um exemplo para multas mulheres...

Anatole France

sexta-feira, 13 de abril de 2018

MÚSICAS DO MUNDO

E as músicas especiais de hoje são...
(Para JP Galhardas, no Cosmos)

DEEP PURPLE - «Child in Time»

Poet'anarquista

CRIANÇA NO TEMPO

Doce criança no tempo, você verá a fronteira
A fronteira que foi desenhada entre o bem e o mal

Veja um homem cego atirando ao mundo
Balas voando, levando tristeza

Se você tem sido mau, Senhor eu aposto que sim
E você não se feriu por uma bala perdida

Você deve fechar seu olhos
Você deve curvar sua cabeça

Espere o ricochete

Deep Purple

DEEP PURPLE - «When a Blind Man Cries»
Poet'anarquista

QUANDO UM HOMEM CEGO CHORA 

Se você está saindo, feche a porta
Eu não estou esperando mais ninguém
Ouça eu me afligindo, eu estou deitado no chão
Se estou embriagado ou morto eu já não estou certo
Eu sou um homem cego, eu sou um homem cego e meu mundo é pálido
Quando um homem cego chora, Senhor, Você sabe que não há conto mais triste

 Tive uma amiga certa vez num quarto
Tive um bom tempo mas acabou muito rápido
Num mês frio naquele quarto
Nós achamos uma razão para as coisas que fazíamos
Eu sou um homem cego, eu sou um homem cego e meu mundo é pálido
Quando um homem cego chora, Senhor, Você sabe que não há conto mais triste

Deep Purple
Banda Britânica

OUTROS CONTOS

«Aquele Português», conto poético por Jaime Salazar Sampaio.

«Aquele Português»
Poema de Jaime Salazar Sampaio

1134- «AQUELE PORTUGUÊS»

aquele português valente que encontrei outro dia
em paris, mostrou-me um artigo de jornal
onde todos os problemas portugueses, todos,
se resolviam em francês.
mexi com força o açúcar na chávena e o nosso
compatriota desapareceu.
de que lhe vale ser português (e valente)
se basta eu agitar a colher no café, 
para ele se perder no boulevard saint michel
ou na rua das pretas?
há muitos anos (vinte? trinta?) vivemos nós todos 
num país que não existe. Somos nove milhões,
quase, e não damos pela coisa.
alimentamo-nos de raiva, caruncho, montes
de anedotas e um vago amor à humanidade
que, pelo seu lado, talvez também não exista
(o amor? a humanidade?... como quiserem, é sempre duvidoso).

Jaime Salazar Sampaio

quinta-feira, 12 de abril de 2018

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

STEPPENWOLF
«I'm Your Hootchie Cootchie Man»

Poet'anarquista


(EU SOU SEU) HOMEM HOOTCHIE COOTCHIE

A cigana disse há minha mãe
Antes de eu nascer
Eu tenho um garoto vindo
Ele vai ser um filha da mãe
Ele vai fazer garotas bonitas
Pular e atirar
Então o mundo quer saber
sobre o que é isso tudo
Mas você sabe que eu sou ele
Todo mundo sabe que eu sou ele
Bem você sabe que eu sou o homem hootchie choochie
Todo mundo sabe que eu sou ele

Eu tenho um osso preto de gato
Eu tenho um dente talismã também
Eu tenho o charme do Johnny
Eu vou mexer com você
Eu vou pegar suas garotas
Leve-me pela minha mãe
Então o mundo irá saber
O homem hootchie cootchie
Mas você sabe que eu sou ele
Todo mundo sabe que eu sou ele
Oh você sabe que eu sou o homem hootchie cootchie
Todos sabem que eu sou ele

Na sétima hora
No sétimo dia
No sétimo mês
Os sete médicos disseram
Ele nasceu por boa sorte
E que você verá
Eu tenho setecentos dólares
Não mexa comigo
Mas você sabe que eu sou ele
Todo mundo sabe que eu sou ele
Bem você sabe que eu sou o homem hoochie coochie
Todo mundo sabe que eu sou ele

Steppenwolf
Banda Norte-Americana

OUTROS CONTOS

«Um Homem e Uma Mulher», conto poético por Mario Rivero.

«Um Homem e Uma Mulher»
Homem e Mulher/ Egon Schiele

1133- «UM HOMEM E UMA MULHER»

E o que esses dois são chamados, Joana e João,
ou mais simplesmente ainda, um homem e uma mulher?
A mulher usa com graça simples
um vestido de pano verde
divorciado de sedas e joias e peles,
e ele parece tão forte
como atleta ou atleta.

Eles estão felizes e talvez também embriagados
porque ambos riem felizes
isolados naquela pequena felicidade.

Como murmúrios de água clara,
você pode adivinhar sons, por trás dos rostos.
Você vê imediatamente que eles são amantes.
A pegada leve da carne,
ainda está sobre ele, disfarçado,
como uma luz que o cobria
nas partes mais macias do seu corpo.

De atração humana, inundada,
as mãos estão reunidas sobre a mesa,
prisioneiro de cada um dos gestos do outro,
Eles riem e riem, com uma verdura que é difícil de esquecer.

Eu me vejo olhando para eles e penso:
Deixe-me apenas estar perto.
Na porta das minhas têmporas o sangue frio, flui
e eu invejo aqueles pequenos momentos ensolarados,
que às vezes iluminam as vidas sombrias ...

Mario Rivero

SÁTIRA...

Desculpem Lá Qualquer Coisinha
Sátira...

«DESCULPEM LÁ QUALQUER COISINHA»

Mea culpa, máxima culpa,
Perdoem qualquer coisinha…
Vasculho a vossa vidinha,
A todos peço desculpa.
Facelook… upa, upa!...
Podem voltar à carga,
A voz se me embarga
Dentro deste Senado…
Sinto que sou culpado,
Mas o vício não me larga!

POETA

quarta-feira, 11 de abril de 2018

OUTROS CONTOS

«A Riviera», conto poético por Jacques Prévert.

«A Riviera»
Poema de Jacques Prévert

1133- «A RIVIERA»

Teus jovens seios brilhavam ao luar
Mas arremeti o
Gelo frio
Da pedra gélida do ciúme
Contra o rio
Que reflectia o
Dançar de tua nudez na Riviera
Pelo esplendor do Estio.

Jacques Prévert

terça-feira, 10 de abril de 2018

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

«AMADEUS QUARTET»

Poet'anarquista

Amadeus Quartet
Conjunto de Câmara Britânico

OUTROS CONTOS

«Madrigal», conto poético por Sebastião da Gama.

«Madrigal»
Poema de Sebastião da Gama

1132- «MADRIGAL»

A minha história é simples. 
A tua, meu Amor, 
é bem mais simples ainda: 

‘Era uma vez uma flor. 
Nasceu à beira de um Poeta...’ 

Vês como é simples e linda? 

(O resto conto depois; 
mas tão a sós, tão de manso 
que só escutemos os dois). 

Sebastião da Gama

SÁTIRA...

O Nosso Alimento
Sátira...

«O NOSSO ALIMENTO»

- Boas notícias, amigo Zé…
Vai terminar a secura
De euros prá cultura…
Quem é amigo, quem é?
- Não faças tanto banzé!…
O nosso entretenimento
Está num bom alimento;
Arroz, tomate e agrião,
Umas sopas de feijão...
Mas que rico sustento!!

POETA

segunda-feira, 9 de abril de 2018

OUTROS CONTOS

«O Convite à Viagem», conto poético por Charles Baudelaire.

«O Convite à Viagem»
Casal Olhando Mapas de Viagem/ Brewtnall

1131- «O CONVITE À VIAGEM»

     Minha doce irmã,
     Pensa na manhã
Em que iremos, numa viagem,
     Amar a valer,
     Amar e morrer
No país que é a tua imagem!
     Os sóis orvalhados
     Desses céus nublados
Para mim guardam o encanto
     Misterioso e cruel
     Desse olhar infiel
Brilhando através do pranto.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

     Os móveis polidos,
     Pelos tempos idos,
Decorariam o ambiente;
     As mais raras flores
     Misturando odores
A um âmbar fluido e envolvente,
     Tetos inauditos,
     Cristais infinitos,
Toda uma pompa oriental,
     Tudo aí à alma
     Falaria em calma
Seu doce idioma natal.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

     Vê sobre os canais
     Dormir junto aos cais
Barcos de humor vagabundo;
     É para atender
     Teu menor prazer
Que eles vêm do fim do mundo.
     — Os sanguíneos poentes
     Banham as vertentes,
Os canis, toda a cidade,
     E em seu ouro os tece;
     O mundo adormece
Na tépida luz que o invade.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

Charles Baudelaire

sábado, 7 de abril de 2018

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(Álbum Completo)

PAVLOV'S DOG - «Pampered Menial»

Poet'anarquista

Pavlov's Dog
Banda Estadunidense

domingo, 25 de março de 2018

OUTROS CONTOS

«Jardim do Segredo», por Manuel Matias.

«Jardim do Segredo»
Soneto de Manuel Matias

1130- «JARDIM DO SEGREDO»

Acordei com gélida sensação de frio
Tinha eu morrido quando era sol posto…
De pronto erguido, sentimento vazio,
Pensei: será que no sono havia morto?

Um estranho silêncio na minha mente
Percorreu pela manhã o pensamento,
E sentindo-me num sonho inquietante
Acabei desperto nesse preciso momento.

A alma, por vontade própria, de mim fugia,
E sem entender porque me abandonaria…
Em grande aflição sentia o próprio medo.

Foi quando o sol nasceu, era um outro dia,
No velho jardim da casa a alma então sorria
Desvendando por fim esse antigo segredo!

Manuel Matias

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

BARCLAY JAMES HARVEST - «Suicide»
Poet'anarquista

SUICÍDIO

Eu acordei com um sentimento, ele estava frio ao meu lado
Você tinha ido com o nascer do sol, deixando as lágrimas nos meus olhos
Levantei-me com um sentimento de um vazio interior
Para o ruído da calçada e no silêncio da minha mente

Bem, eu saí esta manhã, numa rua sem nome
Para um clube chamado o perdedor, como um cão que se foi coxo
Pegou o elevador do clube para o chão com um ponto de vista
Peguei a assinatura vida - é o único que eles fazem

Saí no guarda-trilho, vendo as multidões partir lentamente
Ouvi uma voz gritando não saltar, por favor, pelo amor de Deus deixe-me mudar meu carro!
Senti uma mão no meu ombro, ouviu uma voz de choro na hora!
Sentiu o impulso rápido, senti a pressa do ar
Sentiram a calçada, caiu em linha

Barclay James Harvest
Banda Britânica

domingo, 18 de março de 2018

OUTROS CONTOS

«Em Dia de Aniversário»/  poeta Do Ó versus Ateop.

«Em Dia de Aniversário»
Parceria

1129- EM DIA DE ANIVERSÁRIO…

Valham-nos versus quinze,
pois a notícia do diário
foi por si breve sudário.
Tão falsa como quem finge
ser o que é ao contrário.

Parabéns Senhor Camões
pelo seu dia catorze.
Em falta de dois tostões
lhe mando o melhor qu'houve
de achado em alçapões.

É mesmo do nosso Fernão.
Direi eu e dirás tu:
não há melhor condição
pra guardar papéis em baú
que no alçapão de Belzebu.

poeta Do Ó

Eu lhe agradeço Senhor
O que me foi endereçado;
Do que li, digo aprovado
Com distinção e louvor…
Muito bem ‘apanhado!’

Sobre prenda d’aniversário:
Saiba Vossa Excelência
Que só por inocência,
Um achador falsário
Proclama competência!

Levanta-se a questão
Ainda por esclarecer…
- Ser o dito, ou não ser?
Foge o morto do caixão,
Nunca se chega a saber!

Ateop

sábado, 17 de março de 2018

OUTROS CONTOS

«Quantos São?», por Manuel Matias.

«Quantos São?»
Amigo António 

1128- QUANTOS SÃO?

Quantos anos terá feito
Dadinha, o amigo Tói?
Esse facto já não o mói,
Não lhe encontra defeito.
Uma pergunta sem jeito
Resposta, não tem não,
Proíbe pôr essa questão
Numa quinta-feira…
Nem por brincadeira
Pergunto quantos são!

Manuel Matias

OUTROS CONTOS

«Avó Materna», por Manuel Matias.

«Avó Materna»
Antónia Cardoso Biga

1127- AVÓ MATERNA

Antónia Cardoso Biga
Professora d’eleição…
Dos alunos muito amiga,
Não fazia distinção!
Um aluno sem condição
Resolveu ir resgatar,
Acabou por encontrar
O menino no trabalho…
Na Mina do Bugalho
Deixou boa recordação!!

Manuel Matias

sexta-feira, 16 de março de 2018

OUTROS CONTOS

«Diz-me que não fale da morte...», conto poético por Manuel Matias.

«Diz-me que não fale da morte...»
Avô Materno, Manuel de Sousa Biga

1126- «Diz-me que não fale da morte…»

Fina-se Manel d’ Sousa,
Nasce Manuel Matias…
Faz já uns quantos dias
Que o primeiro repousa.
O segundo agora pousa
Sem causar estranheza,
No coração da Princesa
Onde o poiso se escondia…
O Príncipe não sabia
De tamanha gentileza.

Manuel Matias

segunda-feira, 12 de março de 2018

OUTROS CONTOS

«Ponto Final (.)», conto poético por Manuel Matias.

«Ponto Final (.)»
Poeta Popular Ti Limpas

Morte de grande poeta popular do nosso concelho...

Últimas palavras, na pele de Ti Limpas:

1125- «PONTO FINAL (.)»

Começa a não ter sentido
Escrever que quer que seja,
Alguém por aqui deseja
Outro caminho a ser seguido.
O tempo que foi perdido
Só eu sei como lamento,
Morre-me no esquecimento
E não o penso ressuscitar…
Deixo então de versar
Neste preciso momento.

Manuel Matias

terça-feira, 6 de março de 2018

OUTROS CONTOS

«O Alçapão do Túmulo Perdido», conto poético por Óscar.

«O Alçapão do Túmulo Perdido»
Intruso/ Isabele Linhares

1124- «O ALÇAPÃO DO TÚMULO PERDIDO»

Um achador e um lente de história
entretidos em harmoniosa junção,
de cujos nomes não reza memória,
toparam por detrás de um alçapão
o túmulo perdido do Grã Fernão.

Repare o lente, diz o achador:
só pode ser do procurado arquivista…
e anterior à época quinhentista.
De certeza é Fernã Lopez, escritor
das crónicas joaninas o ceramista.

É preciso alguma cautela…, diz o lente…
há que acertar os pormenores da descoberta
e capítulo da história transcendente.
Cobre o achador a sua melhor oferta:
Com uns bananos pago pormenorizadamente…

Óscar

domingo, 4 de março de 2018

OUTROS CONTOS

«Arrelia», conto poético por Manel d' Sousa.

«Arrelia»
Outros Contos...

1123- «ARRELIA»

Primeiro um abcesso
Junto a dente desvitalizado…
Agora dói do outro lado,
Eu sofredor me confesso!
Estou a ficar possesso
Com este moedor,
É persistente a dor
Não me quer abandonar…
Tenho o dente a latejar,
E a cabeça num horror!!

Manel d’ Sousa

sexta-feira, 2 de março de 2018

OUTROS CONTOS

«Écloga», conto poético por Luís de Montalvor.

«Écloga»
Poema de Luís de Montalvor

1122- «ÉCLOGA»  

Meus pensamentos são rebanhos
estremalhados uns, e tristes
outros pastoreiam seus cuidados.
Sonho vê-los, quando sorriste
daquela margem imaginária
tão só dos sonhos imortais,
à hora em que a flauta débil
suspira os seus fingidos ais.

E é de ouro a hora em que te espero
nesta paisagem que mentiste,
perdidos os rebanhos meus
na errada calma em que sorriste.
— E hoje, morto o sonho, deploro
dos meus cuidados o remédio,
e só o teu sorriso imploro,
ó guardadora do meu tédio!

Luís de Montalvor

SÁTIRA...

Oposição à Séria
Sátira...

«OPOSIÇÃO À SÉRIA»

Senhor Primeiro Ministro…
Aceite este cházinho,
Servido quentinho
Que lhe subministro.
Por si eu administro
Esta débil oposição,
É só dizer a porção
D'açúcar pretendido…
Estou deveras rendido
À sua governação!

POETA