quinta-feira, 25 de maio de 2017

SÁTIRA...

O Ronaldo do Ecofin
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Sátira...

«O RONALDO DO ECOFIN»

Sou Ronaldo no Conselho
Para assuntos económicos,
Os resultados astronómicos
São ganhos financeiros.
Até já os meus parceiros
Me pretendem nomear,
Ainda penso lá chegar
Não me chame eu Centeio…
Marco sempre golo e meio,
No Eurogrupo a facturar!

POETA

quarta-feira, 24 de maio de 2017

OUTROS CONTOS

«Crimes Exemplares», por Max Aub.

«Crimes Exemplares»
Pequeno Conto de Max Aub

1027- «CRIMES EXEMPLARES»

«Penso, logo existo, disse o tal homem famoso. As árvores do meu jardim existem, mas não creio que pensem, pelo que fica demonstrado que o senhor René não estava bom do juízo e que o mesmo acontece com outros seres: o meu sogro, por exemplo – existe, mas não pensa. Ou o meu editor, que pensa, mas não existe. E se pomos isto ao contrário, também não fica certo. Não existo porque penso ou penso porque existo. Pensar, pensa-se, existir é um mito.

Eu não existo, sobrevivo, porque viver – aquilo a que se chama viver – só os que não pensam. Os que se metem a pensar, não vivem. A injustiça é por demais evidente. Bastaria que pensássemos para nos suicidarmos.

Não; senhor Descartes: vivo, logo não penso, se pensasse não vivia, se vivesse não pensava, senhor… etc., etc. Se para viver fosse necessário pensar, estaríamos lúcidos. Mas, enfim, se os senhores estão convencidos de que assim é, estou inocente, completamente inocente, pois não penso nem quero pensar.

Logo, se não penso não existo e, se não existo, como diabo posso ser responsável por essa morte?»

Max Aub

OUTROS CONTOS

«Excertos», por Ferreira de Castro.

«Excertos»
Sepultura de Ferreira de Castro

1026- «EXCERTOS»

I
«Eu nasci a 24 de Maio de 1898. Mas, quando penso na minha idade, sinto-me sempre mais novo, sinto-me sempre beneficiado por quatro anos a menos. São quatro anos iguais a um noite escuríssima, onde não é possível acender luz alguma. Não os viveu o meu espírito. Não estão na minha memória. Não me pertencem. Para a minha realidade espiritual eu tenho 28 anos. É que em 1902 que começo a povoar o museu da minha vida, a decorar a galeria das minhas recordações. Foi numa tarde de sol – tarde de luz forte que eu vejo ainda – que dei início ao longo da casa onde nasci. A diabrura que pratiquei, desvaneceu-se no esquecimento, mas lembro-me, sim, que minha mãe, saindo do quinteiro e agarrando-me por um braço, castigou-me. Passava na estrada, enxada ao ombro, um homem alto, bigodes retorcidos festonando as faces trigueiras. Deteve-se, sorriu e disse:

- “Assim é que é, senhora Mariquinhas! Nessa idade é que eles se ensinam”.

Odiei aquele homem. Por que, em vez de me proteger com a sua força, ele estimulava minha mãe a castigar-me ainda mais? Por que era ele tão mau e por que sorria vendo-me sofrer, se eu não nunca lhe tinha feitio mal?

É esta a minha recordação. E foram de ódio e de sofrimento as primeiras sensações que a vida me deu. Eu tinha quatro anos e meio.»

II
«Quando vinha com minha mãe ao mercado de Oliveira de Azeméis, passava por uma meia porta e via lá uma máquina a trabalhar, a tirar o jornal; aquilo parecia-me uma obra de Deus e o meu sonho todo, tinha 9 anos, seria escrever umas coisas para aquele jornal, para a «Opinião». Se alguém podia ter feito a felicidade de uma criança, seria aquele jornal.»

III
« ...Na minha aldeia fiz a instrução primária; no seringal, lia todos os livros que conseguia encontrar, o que estava muito longe de ser suficiente. Eu sou autodidacta. Não posso mesmo dizer que estudei no que isto significa de disciplina, pois tudo o que aprendi, desde as línguas que me permitissem conhecer o espírito dos outros povos, até à Sociologia e a Filosofia, que tanto me interessavam, o fiz sem esforço... e graças a isso, todas as minhas incursões no mundo do conhecimento humano foram agradáveis em vez de penosas.»

Ferreira de Castro

terça-feira, 23 de maio de 2017

SÁTIRA...

A Onda
Sátira...

«A ONDA»

- Alcançado o objectivo:
Saída do procedimento,
Depois do aprisionamento
Por défice excessivo…
Deixei de estar cativo!
- Zé, podes esclarecer
O que isso quer dizer?
- Não faço ideia, Maria…
Mas uma onda d’alegria
Mal não deve fazer!?...

POETA

segunda-feira, 22 de maio de 2017

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

RICHARD WAGNER - «The Valkyrie»

Poet'anarquista

Richard Wagner
Compositor Alemão

OUTROS CONTOS

«Os Primeiros Encontros», por Gonçalo M. Tavares.

«Os Primeiros Encontros»
Conto de Gonçalo M. Tavares

1025- «OS PRIMEIROS ENCONTROS»

Relato do primeiro encontro da senhora Gertrude com o senhor John

O senhor John perguntou:

- Como é mesmo o seu nome?

A senhora Gertrude respondeu:

- Gertrude. Com um único T e saia travada.

O senhor John disse:

- É uma saia travada mas anda.

A senhora Gertrude respondeu:

- É saia travada porque está muito apertada. Estas saias já não se usam, mas eu uso-as. Gosto de estar sempre atrasada, tanto para os encontros inadiáveis que eu adio, como em relação à moda. A senhora Gertude, eu própria aqui presente, está sempre atrasada.

O senhor John disse:

- Não é grave.

A senhora Gertrude respondeu:

- Uso saia travada e, por isso, com semelhante tecnologia de vestuário o ser humano que vai aqui dentro tem de andar mais devagar que os seres humanos normais. Mas eu sou assim.

O senhor John disse:

- Com essa saia travada já é um milagre que a senhora Gertrude consiga pôr um pé a seguir o outro. Com essa saia travada o mais natural era um pé estar sempre ao lado do outro, como nas estátuas.

A senhora Gertrude disse:

- O senhor John tem humor, mas diga-me lá: esse seu chapéu, é mesmo seu, ou veio com a chuva de ontem?

O senhor John respondeu:

- A senhora Gertrude tem humor, mas os chapéus não vêm do céu com a chuva. Se quer saber, uso chapéu porque sou um homem elegante. É uma informação que lhe dou.

A senhora Gertrude respondeu:

- Agradeço a informação. É bom estarmos informados. Se não me tivesse dito eu nunca saberia que o senhor era um homem elegante. Agradeço a informação.

O senhor John sorriu e nada disse: levantou o dito chapéu, e fez uma vénia.

A senhora Gertrude corou, ajeitou a sua eterna saia travada, fez um beicinho, leve, para não parecer despropositado, e despedindo-se com rapidez para ser a primeira a despedir-se, disse:

- Tenho de ir. Deixei a porta do armário dos copos aberta. Não quero que eles se partam sem eu estar presente. Adeus.

Já afastada uns metros a senhora Gertrude ainda gritou para o senhor John:

- É que tenho um gato! Um gato!

O segundo encontro da senhora Gertrude com o senhor John

O segundo encontro da senhora Gertrude com o senhor John ocorreu quando o senhor John ia a caminhar pelo passeio e a senhora Gertrude gritou, do outro lado da rua:

- Olá, senhor John, como vão as coisas?

- Tudo a andar, senhora Gertrude, as coisas estão a andar  como as duas pernas – respondeu o senhor John. - Os braços, a cabeça, o coração e os olhos: tudo a andar como as pernas. E a senhora Gertude?

- Sempre com pressa!

- Para si vai tudo a correr, não é verdade?

- Exactamente, senhor John.

- Cumprimentos ao gato!

- Muito obrigado. Um destes dias tem de conhecer o meu gato, disse ainda a senhora Gertrude, que logo se arrependeu de ter dito tal frase.

Vai pensar que foi um convite, dizia para si própria, já em casa, a senhora Gertrude. E vai pensar que eu sou uma atrevida.

E parecia verdade: a senhor Gertrude estava a apaixonar-se.

Gonçalo M. Tavares

sábado, 20 de maio de 2017

SÁTIRA...

Alô, Rússia?
Sátira...

«ALÔ, RÚSSIA?»

- Alô?... és tu Vladimir??
Daqui fala o Donald…
Em nome da amizade
A Rússia penso servir (…?...)
- Só tens é que mentir…
Eu dou consentimento,
Não há impedimento
Comigo podes contar…
- Segredos por revelar
Tenho mais de um cento!

POETA

sexta-feira, 19 de maio de 2017

OUTROS CONTOS

«Cumpridos Dez Anos de Prisão», por Mário de Sá-Carneiro.

«Cumpridos Dez Anos de Prisão»
Conto de Mário de Sá-Carneiro

1024- «CUMPRIDOS DEZ ANOS DE PRISÃO»

Cumpridos dez anos de prisão por um crime que não pratiquei e do qual, entanto, nunca me defendi, morto para a vida e para os sonhos... nada podendo já esperar e coisa alguma desejando - eu venho fazer enfim a minha confissão: isto é, demonstrar a minha inocência.

Talvez não me acreditem. Decerto que não me acreditam. Mas pouco importa. O meu interesse hoje em gritar que não assassinei Ricardo de Loureiro é nulo. Não tenho família; não preciso que me reabilitem. Mesmo, quem esteve dez anos preso, nunca se reabilita. A verdade simples é esta. Ricardo de Loureiro, o poeta das Brasas...

Fui pouco a pouco distinguindo os objetos... e, de súbito, sem saber como, num rodopio nevoento, encontrei-me sentado em um sofá, conversando com o poeta e a sua companheira.

Sim. Ainda hoje me é impossível dizer se, quando entrei no salão, já lá estava alguém, ou se foi só após instantes que os dois apareceram. Da mesma forma, nunca pude lembrar-me das primeiras palavras que troquei com Marta - era este o nome da esposa de Ricardo. Enfim, eu entrara naquela sala tal como se, ao transpor o seu limiar, tivesse regressado a um mundo de sonhos. Eis pelo que as minhas reminiscências de toda essa noite são as mais ténues.

Entretanto, durante ela, creio que nada de singular aconteceu. Jantou-se; conversou-se largamente, por certo... à meia-noite despedi-me. Mal cheguei ao meu quarto, deitei-me, adormeci... e foi só então que me tornaram os sentidos. Efectivamente, ao adormecer, tive a sensação estonteante de acordar de um longo desmaio, regressando agora à vida... não posso descrever melhor esta incoerência, mas foi assim. (E, entre parênteses, convém-me acentuar que meço muito bem a estranheza de quanto deixo escrito. Logo no princípio referi que a minha coragem seria a de dizer toda a verdade, ainda quando ela não fosse verossímil.)

Raros dias se passavam em que não estivesse com Ricardo e Marta. Quase todas as noites nos reuníamos em sua casa, um pequeno grupo de artistas: eu, Luís de Monforte, o dramaturgo da Glória; Aniceto Sarzedas, o verrinoso crítico; dois poetas de vinte anos cujos nomes olvidei e - sobretudo - o conde Sérgio Warginsky, adido da legação da Rússia, que nós conhecêramos vagamente em Paris e que eu me admirava de encontrar agora assíduo frequentador da casa do poeta.

Ricardo empurrou a porta brutalmente... em pé, ao fundo da casa, diante de uma janela, Marta folheava um livro... a desventurada mal teve tempo para se voltar... Ricardo puxou de um revólver que trazia escondido no bolso do casaco e, antes que eu pudesse esboçar um gesto, fazer um movimento, desfechou-lho à queima-roupa. Marta tombou inanimada no solo... eu não arredara pé do limiar... e então foi o mistério... o fantástico mistério da minha vida... ó assombro! ó quebranto! Quem jazia estiraçado junto da janela, não era Marta - não! -, era o meu amigo, era Ricardo... e aos meus pés - sim, aos meus pés! - caíra o seu revólver ainda fumegante!...

Marta, essa desaparecera, evolara-se em silêncio, como se extingue uma chama.

Aterrado, soltei um grande grito - um grito estridente, despedaçador - e, possesso de medo, de olhos fora das órbitas e cabelos erguidos, precipitei-me numa carreira louca... por entre corredores e salões... por escadarias...

Mário de Sá-Carneiro

SÁTIRA...

Ordem de Mérito
Sátira...

«ORDEM DE MÉRITO»

Crescimento económico:
- Os louros não são teus!
- São meus, muito meus!!
- Isto ultrapassa o anedótico,
Mas eu vou dar o tónico:
Do alto do meu castelo
Sou eu quem tutelo…
Aqui este nosso emérito
Fez por merecer o mérito,
Agradeçam ao Martelo!

POETA

quinta-feira, 18 de maio de 2017

SÁTIRA...

O Positivista
Sátira...

«O POSITIVISTA»

- O que é que laranja do chão
Pensa da boa economia?
- Trata-se de uma anomalia,
Fruto da vossa imaginação.
- Não acha a sua opinião
Desajustada e negativa?
- Sobre tal prerrogativa…
Só eu sei como lamento
Esta fase de crescimento,
Infelizmente ser positiva!

POETA

quarta-feira, 17 de maio de 2017

OUTROS CONTOS

«A Visita», por Zélia Gattai.

«A Visita»
Conto de Zélia Gattai

1023- «A VISITA»

Graças a uma das visitas de Vinicius à nossa casa, salvou-se a série de canções para crianças, de sua autoria:

À beira da piscina, o inseparável copo de uísque ao lado, violão em punho, Vinicius cantava.

Faço um parênteses para me desculpar. Na afobação de querer contar logo a história que me veio à memória — como já devem ter percebido, não tenho anotações, tiro tudo da cachola à medida que as lembranças chegam — esqueci-me de pedir licença para, ainda uma vez, avançar no tempo. Peço agora, pois devo explicar como foi que as músicas infantis de Vinicius de Moraes se salvaram. Avanço tanto, tanto, que falo até de meus netos, os três que existiam na época: Mariana, Bruno e Maria João.

Nessa ocasião, o amor de Vinicius, sua mulher, era uma baiana, Gessy Gesse, a quem devemos a vinda do poeta à Bahia, onde até uma casa ele construiu, disposto a ancorar entre o mar e os coqueiros de Itapuã.

Estávamos à beira da piscina e Vinicius cantava — como foi dito — quando chegaram meus três netos.

Eu agora vou cantar umas musiquinhas para vocês, disse Vinicius às crianças, e começou: Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada… Espera aí, interrompi, vou buscar um gravador. Assim dizendo saí ligeiro. Voltei em seguida, gravadorzinho ligado e ele recomeçou: Lá vem o pato, pato aqui, pato acolá… Cantou todas as canções, intercalando entre elas uma chama, da: Esta é para Marianinha!… Esta é para Bruninho!… Esta é para Maria João!… Encantadas, as crianças ouviam as músicas pela primeira vez, pois elas ainda não haviam sido gravadas naquela ocasião. Ao saber que não restara nenhuma gravação delas após a morte de Vinicius, entreguei meu cassete à Gilda Queiroz Matoso, última e amada companheira do poeta até seus derradeiros momentos. Gravação precária, porém a única que restou e é a que se ouve até hoje.

Vinicius tornou-se íntimo de Calasans Neto e Auta Rosa, adorava o casal, alugou casa em Itapuã antes de construir a própria, queria ficar perto deles.

A rua da Amoreira, onde moravam — e moram até hoje — Calasans e Auta Rosa, era um horror: lama, buraqueira e, como se isso não bastasse, havia esgoto a céu aberto.

Frequentador assíduo da casa, inconformado com a situação dessa rua, Vinicius não teve dúvida, redigiu uma petição em versos ao prefeito de Salvador. No poema, verdadeiro primor, pedia-lhe atenção e carinho para a rua.

Combinou com Jorge, que conseguiu a publicação do poema-petição na primeira página do jornal A Tarde.

Petição ao Prefeito

Prefeito Clériston Andrade
A quem ainda não conheço:
Quero tomar a liberdade
Que eu nem sequer sei se mereço
De vir pedir, lhe, em causa justa
Um obséquio que, sem favor
Muito honraria (e pouco custa!)
Ao Prefeito de Salvador.
Existe ali no Principado
Livre e Autónomo de Itapuã
Uma ruazinha que, sem embargo
Pertence à sua jurisdição
Uma rua não sem poesia
E cujo título é dar teto
A uma das glórias da Bahia:
O gravador Calasans Neto.
Dizer do estado dessa ruela
(Da Amoreira) eu não arrisco
Porque sem esgotos, correm nela
Rios de … — Valha-me o asterisco!
E isso é uma pena, Senhor Prefeito
Pois Calasans e sua gravura
Têm cada dia mais procura
De fato como de direito:
O que constrange os visitantes
Com boa margem de estrangeiros
A, entre gravuras fascinantes
Ver quadros nada lisonjeiros.
Calce essa rua, Senhor Alcaide
E eu lhe garanto que algum dia
Pro domo sua, esta Cidade
O há de lembrar com mais valia.
Na expectativa de que acorde
Um novo “Cumpra, se” , sem mais
Aqui se assina, muito ex-corde
O seu, Vinicius de Moraes.

Tiro e queda, a resposta do prefeito foi imediata, em pouco tempo a rua de Auta e Calá foi consertada e asfaltada e, diga-se de passagem, ela foi, por algum tempo, a única rua asfaltada das imediações.

Naqueles tempos, a decantada beleza de Itapuã se resumia no mar, nas praias, nos coqueirais e nas canções de Dorival Caymmi.

Para festejar o acontecimento, Jenner Augusto e Luísa ofereceram um almoço ao qual Vinicius compareceu vestido de gari da limpeza pública, levando para Calá e Auta a petição, enquadrada.

Zélia Gattai

terça-feira, 16 de maio de 2017

SÁTIRA...

Graça Papal
Sátira...

«GRAÇA PAPAL»

- Eminência, fico feliz
Por aceitar o convite,
O 13 de Maio insiste
Na visita ao meu país.
- Está por um triz
O ‘Inferno’ pegar fogo,
Eu não sou demagogo
Nem doente da bola...
O tetra já não descola,
A que horas é o jogo?

POETA

SÁTIRA...

Os Três F
Sátira...

«OS TRÊS F»

Acabou de acontecer
A profecia dos três efes…
Ainda há mais benesses,
O quarto está pra suceder.
Por ordem vou descrever:
Fátima, futebol e fado,
Falta o menos falado
Mas não foi esquecido…
O quarto efe é ‘fodido’,
Não pode ser revelado!

POETA

SÁTIRA...

O Salvador
Sátira...

«O SALVADOR»

- Senhor, salva-nos da borrasca,
Desta miséria ultrajante…
Daqui pra diante
Não quero andar à rasca!
Tem sido ao desenrasca
Que como naco de pão,
Agradeço a tua aparição
Nessa velha oliveira…
- Não, não é brincadeira,
Ganhámos a Eurovisão!!

POETA

SÁTIRA...

De Vento em Popa
Sátira...

«DE VENTO EM POPA»

- Tonho, o vento sopra a favor
Ninguém pára a Geringonça,
Aos três amigos da onça
Há que prestar justo louvor!
- Já chegou o tempo do calor,
Foi-se embora a tormenta…
Não sei se a malta aguenta
Até alcançar o que é preciso…
- Tonho, podes ser mais conciso?
- Ainda falta ganhar o penta!

POETA

sexta-feira, 12 de maio de 2017

OUTROS CONTOS

«Um Natal com Morangos», por Baptista-Bastos.

«Um Natal com Morangos»
O pedido que atravessou os céus

1022- «UM NATAL COM MORANGOS»

(A pequena grande história que atravessou os céus)

“Houve um bom Natal na minha vida. Um bom Natal inesquecível. Um Bom Natal em que este metro e oitenta e quatro de português, que redige um português inútil, inútil português de metro e oitenta e quatro presumiu ser útil escrevendo num português inçado de erros, coxo, desmantelado - mas feliz.

Foi assim: pelas onze e meia da noite de um 24 de Dezembro eu estava na redacção do jornal onde trabalhava. Veio um telegrama de Londres que dizia mais ou menos isto: Um menino que está a morrer pediu à mãe morangos. Não há morangos em Inglaterra, por esta época do ano.

A mãe foi à BBC e a BBC fez um apelo. Um avião em voo escutou-o. Transmitiram o apelo a todos os aviões do mundo. E alguns aviões do mundo atrasaram as suas partidas, transferiram de bojo para bojo um cesto de morangos que fora adquirido na Cidade do México. Os morangos chegaram a Londres.

Não havia mais no telegrama; mas era uma grande história de Natal e de amor, numa suave noite de Natal, em que seria radioso relembrar às pessoas que, por vezes, as pessoas conseguem coisas formidáveis.” 

(Baptista-Bastos in “Cidade Diária”)

SÁTIRA...

Onde Estás, Baptista?
Sátira...

«ONDE ESTÁS, BAPTISTA?»

- Ó São Pedro, no Paraíso
Também há politiqueiros?
- Não tem pantomineiros,
Politiquices aqui não preciso!…
Mas podes ser mais conciso,
Meu caro Baptista-Bastos?
- Esclarece tu os incautos…
Verdade que estavas febril
Quando foi o 25 de Abril?
- Na altura andei de rastos!

POETA

quinta-feira, 11 de maio de 2017

OUTROS CONTOS

«Esplanada», conto poético por Fernanda Botelho.

«Esplanada»
Esplanada/ JPGalhardas

1021- «ESPLANADA»

É o processo da forma seca e pobre
na calma aceitação de mais torpor:
nada que persista ou que demore
mais que o minuto calmo em que descobre
que, se o cenário mudou, a forma
continua.
E não transtorna,
nem ousa (ronceirosa)
mudar a cor da lua
ou por ordem no caos.

Esta é a fábula da lesma preguiçosa
à temperatura de 35 graus.

Fernanda Botelho

domingo, 7 de maio de 2017

OUTROS CONTOS

«Mãe!...», conto poético por Matias José.

«Mãe!...»
Joana, mãe de criação e Francisca, mãe do ser

Poema escrito para a mãe de criação, onde também cabe a mãe do ser. Obrigado, mães!

(Duas mães é sempre melhor)

1020- «MÃE!...»

Mãe!... Esse terno rosto, lindo sorriso
Quando na casa humilde me acolhias...
Oh!... Como tudo parecia caloroso,
Do jeito manso que sempre sorrias!

Mãe!... A casa tão pequenina acolhedora
De uma estranha paz no seu aconchego,
E as imagens da Virgem Nossa Senhora
Reconfortando a alma em desassossego!

Mãe!... Com as tuas mãos entrelaçavas
As minhas que dormir quase pareciam,
Ouvindo a tua voz enquanto rezavas 
 Pedir à Virgem pelos que mais sofriam!

Mãe!... Quanta saudade do teu regaço,
Desses ternos carinhos que fazias...
Dos teus beijos, do suave abraço,
E das palavras doces que me dizias!

Matias José

sexta-feira, 5 de maio de 2017

SÁTIRA...

O Pântano
Sátira...

«O PÂNTANO»

- Tonho, como aconteceu
Caires nesse pântano?
- Obra d’amigo “cigano”,
Empurrou e desapareceu!
- E agora… que faço eu?
- Políticas pantanosas
São as mais vantajosas…
Podes dar seguimento
Ao pântano pestilento,
Que se cozam as rosas!!

POETA

quarta-feira, 3 de maio de 2017

SÁTIRA...

O Choque
Sátira...

«O CHOQUE»

- Tonho, estou chocado!...
Em Portugal os gestores
Ganham aos trabalhadores,
100 vezes no ordenado…
Isso tem que ser alterado!
- Só 100 vezes é pouco…
O gestor anda louco
Pra ter uma vida digna…
Assim ninguém se resigna,
100 vezes sabe apouco!!

POETA

SÁTIRA...

A Lei da Rolha
Sátira...

«A LEI DA ROLHA»

- Quando trouxe miséria
Não metíamos a rolha,
Na boca de qualquer trolha…
Era tudo gente séria!
- Sobre essa matéria
Nem sei o que pensar,
Mas sempre podes usar
A dita na retaguarda…
- Matraca bem rolhada,
E acabou-se o piar!

POETA

domingo, 30 de abril de 2017

OUTROS CONTOS

«O Jogo da Baleia Azul», conto poético por Manel d' Sousa.

«O Jogo da Baleia Azul»
A Baleia Azul/ HenriCartoon

1019- «O JOGO DA BALEIA AZUL»

A baleia azul imponente
Quase extinta dos oceanos,
Pela mão dos humanos
Era ferida mortalmente.
Usar seu nome inocente
Em jogo de mortandade,
Envergonha a humanidade
Neste século vinte e um…
Na internet hoje comum,
Esta virtual realidade!

Manel d' Sousa

quinta-feira, 27 de abril de 2017

OUTROS CONTOS

«O Viajante Clandestino», por José Rodrigues Miguéis.

«O Viajante Clandestino»
Conto de José Rodrigues Miguéis

1018- «O VIAJANTE CLANDESTINO»

Nesse ano – hoje tão distante no tempo e nos usos dos homens, que por vezes julgamos viver noutro mundo – o Dezembro correu muito menos frio do que habitualmente ao longo da costa do Atlântico: nevoento e chuvoso, e morno até, como se a corrente, vinda lá de baixo, do Golfo, antes de se alongar a caminho da Europa, tivesse querido acercar-se do litoral para o aquecer e abrigar melhor das águas gélidas que descem da Gronelândia.

O Natal estava à porta, e a neve sem chegar. Ora, um Natal sem neve nem frio não é festa nem é nada. Não rangem trenós nas encostas e caminhos, não se vêem homens de neve com um chapéu velho na cabeça e o cachimbo entre os dentes imaginários, não há batalhas de bolas de neve, e nos tanques e lagos, que não gelaram, não pode a gente patinar de mãos dadas, com as faces vermelhas, o cabelo solto, e o cachecol a esvoaçar ao vento; não há gritos de júbilo e susto no ar cristalino, nem o tinir das guizalhadas – Jingle bells, Jingle bells, Jingle all the way... – que enche as noites estreladas dum eco de tempos lendários. Nos relvados, em frente das moradias, as árvores de Natal não espalham na alvura fofa do chão os reflexos silenciosos e multicores das suas luminárias, a sugerir calor, intimidade e hospitalidade. A natureza escura e molhada, a névoa e a chuva, os arvoredos hirtos e desnudadas, tudo amortece o resplendor das casas, e abafa os repiques dos campanários, que de outro modo encheriam a vítrea sonoridade da noite.

Através das janelas irrompem no escuro os doirados clarões da festa; lá dentro, há sempre o mesmo entusiasmo e a mesma gula pelos presentes do Santa Klaus, empilhados em torno da árvore fulgurante de luzes, nas suas embalagens de luxo e fantasia. E o viajante solitário e sem família que passa na estrada pode entrever com melancolia os pares que dançam, ou os rostos saciados e felizes em volta da mesa bem guarnecida, a que preside um gordo e tostado peru. O Natal fica doméstico e recolhido, e perde a alegria pagã que ecoa de risos e apelos juvenis nos bosques e nos vales. Não, um Natal sem neve, um Natal que não seja «branco», não é festa nem é nada: parece um Thanksgiving que se atrasou no calendário.

Ora isto deu-se (ou melhor, começou) em Baltimore, que é uma cidade algo sombria, pacata e ordeira, embora muito menos triste do que a visionou o nosso Poeta – «cidade triste entre as cidades, ó Baltimore!» Ou talvez os seus sinos tenham esquecido a rima do sinistro never more, never more, que ele julgou ouvi-los clamar, ecoando o Poe. É preciso sair do centro, e percorrer os subúrbios, para se encontrar a atmosfera própria da «estação festiva». Quanto aos cais, são soturnos, caóticos, confusos, e aqui e além ameaçam ruína os hangares e barracões grisalhos, como velhos pardieiros ou igrejas rústicas abandonadas. São tristes os portos decadentes, sobretudo de noite e nas épocas de crise! Mas respira-se uma poesia sugestiva nestes molhes de estacaria luminosa e negra, onde as marés, cansadas e oleosas, vêm bater de manso o ritmo da sua canção de amor à terra. Há cidades que parecem viver na intimidade dos dramas e segredos do mar; onde este está sempre presente, em convívio com os homens. E nada fala tanto ao coração do errante solitário, como este apelo eterno do mar, junto aos cais.

Foi a um destes molhes meio esbarrondados que o navio atracou pela manhã de vinte e quatro de Dezembro, vindo do mar aberto e azul, da África e dos trópicos.

Era um velho cargueiro esgalgado, de alta chaminé enfarruscada, com grandes remendos no casco a desfazer-se em ferrugem, e a linha de flutuação muitos palmos acima das ondas: uma dessas ruínas obscuras que singram vagarosamente os sete mares do mundo, coxeando em busca de freguês, com roupas mal lavadas a enxugar pelos cordames, e alguns marujos esquálidos acotovelados às amuradas, a olhar a terra estranha. Um navio, em suma, que podia ter inspirado um conto triste a Joseph Conrad ou a Pierre Mac Orlan.

A sua carga era pobre e variada: óleo de palma, cocos, bananas verdes em começo de putrefacção, amendoim, duas dúzias de fardos de algodão, e um macaco mais ou menos domesticado, que adoecera em viagem e gemia numa cama de trapos, com febre, queixoso da invernia.

Também vinha a bordo um passageiro, um só, de que não rezavam os livros de navegação e que não pagara a passagem, entregue ao cuidado cúmplice de dois marinheiros: escondido nas entranhas gemebundas do calhambeque, num cubículo sem ar nem luz, junto das carvoeiras, na companhia das ratazanas. Quem era e donde vinha ele? Ah, mas são perguntas, essas, que se não fazem nunca a um destes homens magros, de rosto antes do tempo engelhado pelos trabalhos, as privações e os ventos forasteiros, com os olhos negros a luzir sombriamente de medo e desconfiança no fundo das órbitas encovadas. Viria de Marrocos, valhacouto de tantos desgraçados? das Ilhas Perfumadas? da Costa d’África?

Ninguém o diria, nem que o soubesse, e ele menos que ninguém. A ilegalidade tem as suas leis, a sua moral e as suas combines, e o silêncio é a regra de ouro dos pobres deste mundo. Quem o pusera a bordo? Quem o mantinha e sustentava ali, durante a noite, em segredo, com os restos miseráveis do rancho da tripulação meio andrajosa? – Mistério, mistério! A solidariedade é outra lei sagrada entre os homens que vivem à margem da vida.

Tinha embarcado pela calada da noite nalgum porto desolado das Áfricas ou dos Arquipélagos, e é tudo. Alguém o tinha guiado em silêncio no labirinto ressonante do cargueiro, e ali o deixara como um rato de porão. E ali, na sombra sufocante, tinha transposto as claridades sem limites do oceano tropical, para dar entrada no Inverno americano.

O «Maria Alberta» – chamemos-lhe assim, escondendo-lhe o nome verdadeiro e a matrícula – cumpridas as formalidades da lei, despejou no cais deserto e cinzento a escassa mercadoria. Os guindastes e cabrestantes rangeram, as roldanas guincharam nos cadernais, os botalós descreveram no ar baço a sua incerta acrobacia, e os fardos, caixotes e engradados deram entrada nos hangares varridos de ventania. A noite chegou cedo, e tudo recaiu no silêncio. Os guardas e funcionários do cais foram-se quase todos embora, e o «Maria Alberta» sumiu-se no esquecimento e na obscuridade, como um cavalo cansado e lazarento ao fundo duma estrebaria.

Era a véspera de Natal, e cada qual procurou o seu conchego, a família se a tinha, ou o recanto enfumarado dum bar de tectos baixos, com mulheres esgrouvinhadas e descoloridas sob a maquilhagem, a beberricar whisky de má raça e a meter moedas num juke-box trepidante de melodias quentes e ensolaradas, de Califórnias e coqueirais que só existem no sonho e no celulóide. Para os homens que rastejam à superfície do globo e da vida, de porto em porto como se pátria nenhuma os aceitasse, não há outro refúgio senão esse: e no fi m, uma cama de aluguer e uns braços de empréstimo.

O silêncio escorreu sobre os molhes e hangares, raras luzes brilhavam, poucas conseguiam vencer a espessura da névoa a desfazer-se em chuva. Os mastros dos cargueiros atracados em feixes perdiam-se no céu encarvoado. Mas a neblina cria sempre, em volta dos portos, um manto de abrigo e clandestinidade.

O capitão desembarcou à paisana, e foi à sua vida: tinha uns negócios quaisquer a tratar em Filadélfia. Atrás dele foi-se o imediato, depois alguns oficiais e pilotos, o enfermeiro, e até marinheiros. Alguns deles levavam uma garrafita duma aguardente intragável, a que chamavam brandy, com que esperavam lubrificar a boa vontade dos funcionários da Alfândega, de modo a passarem sem a apalpação da ordem nem a inspecção aos embrulhos.

Os funcionários, quase todos irlandeses, nutridos, bem pagos e agasalhados nos seus quentes e macios uniformes, olhavam com um misto de dó e espanto ou ironia aqueles pobres marítimos magrizelas e mal barbeados, que tiritavam dentro das farpelas de ganga ou cotim desbotado, com remendos, raros deles envergando um jaquetão razoavelmente coçado, e com a gorra de malha ou a boina basca na cabeça. Que diacho de candonga é que eles podiam transportar? Nenhum trazia com certeza ouro, diamantes ou coca.... Aceitavam a garrafita e deixavam-nos passar: «Merry Christmas!» Depois voltavam ao seu póquer, ao cachimbo e ao copo de bourbon. Os marujos sorriam, humildes, esfregavam as mãos enregeladas, e desapareciam no escuro, com as calças enrodilhadas nas canelas, convencidos de que tinham ludibriado a vigilância do Departamento do Tesouro. E que iam eles fazer na terra dos dólares, em noite de Natal, com as suas pobres roupas e os seus magros bolsos de embarcadiços?

O passageiro tinha subido, já noite fechada, das entranhas da carvoeira, para se esconder numa clarabóia do convés, sob a qual havia espaço para um homem se deitar, como num esquife. (Já ali tinham viajado outros, durante dias e até semanas, e um deles, por sinal, apanhado pela dura invernia do Norte – os cordames eram estendais de gelo! – com as roupinhas leves em que vinha do Brasil, ficara tolhido para o resto dos seus dias.) Não comia desde que, manhã cedo, lhe tinham levado o café amargoso e a bucha do pão; a fome roía-o, e depois do calor abafante das caldeiras, o frio húmido da noite inteiriçou-o. Ali encaixado, ouviu vozes de comando, risos, passos de homens que desciam a prancha, os ecos de ferro do navio despejado. Esperou que, tudo sossegado, o viessem pôr em liberdade. Mas o tempo corria, naquela imobilidade, e a impaciência dele cresceu:

Que raio esperavam eles para o tirar da toca? Iriam esquecê-lo, deixá-lo a bordo sozinho, metido naquela urna a morrer de fome e de frio?... Haveria dificuldades imprevistas ao seu desembarque?... A noite avançava com um vagar exasperante, e ele tinha pressa. Apertava ao corpo, para se aquecer, o saco onde encerrara os parcos haveres.

Tinha entrevisto na noite, ao chegar ali, os perfis dos barracões do porto, mais longe fábricas, prédios, o clarão mortiço da cidade. Estava na América, a dois passos do trabalho e do pão, a um salto do seu destino. E o coração batia-lhe de anseio. Já tinha regularizado contas com os marujos que o tinham posto a bordo, escondido e alimentado. Se havia mais alguém por trás deles, isso não era da sua conta. Restavam-lhe algumas dolas no fundo de um bolso das calças. Junto delas, retinha na palma da mão suada um papel puído, com um endereço, esse ponto perdido na imensidade da América desconhecida: Patchogue ou coisa assim, para lá de Nova Iorque, em Long Island, a quantas léguas seria aquilo de Baltimore, e quanto teria ele que palmilhar às cegas, para alcançar o seu destino?! (Se lá chegasse...) E uma data de números, de portas e ruas, isso ele não entendia, não entendia nada, não sabia patavina de inglês, só sabia que estava ali à espera que dispusessem dele, para começar vida nova, ou então... Sozinho, diante do desconhecido. Não conhecia ninguém, nesta terra envolta em noite e humidade.

Inquietava-o pensar em tudo isso, ali imóvel, impotente, com o coração do tamanho dum feijão a zumbir-lhe no peito apertado. Sonhava com a América havia muitos anos. Vinha em busca dela como, quatrocentos anos antes, e mais, os seus antepassados (isto é um modo de falar) tinham andado em demanda da Terra Firme, do El Dorado e do Xipango. Esses porém eram felizes, não precisavam de passaporte, o mundo era então um mistério aberto à curiosidade e ambição de todos! Ele viajava escondido, embora não buscasse oiro nem prata nem pimenta. Tinha dois braços, sabia pegar numa enxada ou picareta, queria trabalhar. E se o oiro não andava agora aos pontapés, quem caminhasse de olhos no chão ainda podia topar aqui e ali com algum penny perdido – assim tinha ouvido dizer a um trangalhadanças dum alemão que da América voltara com dois patacos, e ele conhecera algures. A lenda do Novo Mundo ainda não tinha morrido no coração, ou seria no estômago?, dos homens. Para alcançá-lo tomara pelo caminho mais curto, que é quase sempre o mais arriscado: a clandestinidade. Assim viera meter-se a bordo deste cargueiro de má-morte, um calhambeque  desfazer-se em ferrugem, asmático e claudicante.

O tempo correu e ele dormitou. De repente acordou sobressaltado, e enclavinhou as mãos no saco. Uma voz rouca segredava-lhe ao ouvido:

– Salte cá para fora, Seu Tomé!

A clarabóia estava levantada. Atirou com as pernas entanguidas para fora do esquife, mas quando se quis pôr em pé elas recusaram-se a aguentá-lo; doía-lhe a barriga, tinha a bexiga a arrebentar, e uma sede de morte.

– Não me posso mexer!

O marujo murmurou qualquer coisa que ele não ouviu bem, uma praga com certeza, e pôs-se a esfregar-lhe com vigor as costas, as pernas e os braços.

– Beba lá um gole de cachaça. Aqui é que vossemecê não pode ficar. Veja se se despacha, temos que aproveitar esta aberta, enquanto não anda nenhum guarda no cais.

Bebeu, sentiu um pouco de vida voltar-lhe aos membros, e pôde enfim andar. Foi verter águas junto dum turco dos salva-vidas. O outro fumava, impaciente, escondendo a brasa do cigarro na concha da mão morena.

– Pegue lá uma bucha prà viage. E agora tenha cautela, há?

Palpou o embrulho morno do farnel que o marujo lhe meteu na mão, e encaminhou-se atrás dele para o castelo da popa em trevas. Tinham retirado a prancha, mas nem que ela lá estivesse: mesmo àquela hora adiantada era perigoso desembarcar a descoberto. O que ele tinha a fazer era transpor a amurada e descer por um cabo da amarração, como uma ratazana.

Chegara o momento difícil. Mas uma vez no cais, olho atrás olho adiante, cosido com as sombras e as paredes, fazendo-se parte delas, era sumir-se no desconhecido, e estava livre.

– Meta o farnel no saco, homem. E pendure-o do pescoço, como é que você quer descer assim? Não tenha medo, agarre-se bem e ande prá frente.

Trocaram um aperto de mão. O clarão frouxo da cidade, a distância, enegrecia mais, por contraste, as vizinhanças. Ajeitou a trouxa ao pescoço, e sentiu-se pálido. A que altura estariam do cais? O marujo segurou-o, ajudou-o a transpor a amurada fria e molhada, e ele agarrou-se à corda com força. Ouviu em cima um murmúrio:

– Boa sorte! Vá com Deus.

Ficou sozinho, encangonchado no grosso cabo, áspero e encharcado. Alguns metros abaixo dele, invisível, era o cais, a terra firme, a liberdade, o pão amassado com o suor do seu rosto. Saberia alcançá-lo? Coragem! Sim, mas tinha o com licença que não lhe cabia nele uma agulha. Era como se estivesse entre mar e céu, com o Credo na boca por todo amparo. Devagar, com o saco pendurado ao pescoço a embaraçar-lhe os movimentos, e de pernas ensarilhadas, deixou-se escorregar. A palma das mãos ardia-lhe na aspereza do cabo. O peso do corpo puxava-o para o lado inferior, mas ele era magro e lá conseguiu resistir à gravidade e manter-se equilibrado a cavalo na amarra.

Diante dos olhos só tinha agora o casco negro do navio, que não conseguia desfitar, como se a ele se quisesse prender pelo magnetismo da vista. A água clapotava contra a estacaria, que rangia brandamente. Aquela água era agora o seu terror, e talvez viesse a ser o seu túmulo. Se a olhasse podia-lhe dar uma vertigem, e então...

Pela posição e balanço mais amplo do cabo percebeu que ia a meio caminho. Mas nem podia olhar para trás, nem via um palmo adiante do nariz, além do negrume do casco. Deixou-se escorregar mais um pedaço, com dificuldade, porque o cabo se aproximava da horizontal, e, segurando-se com firmeza, saltou e agitou uma perna, à procura do contacto com a terra. Mas esta devia estar ainda fora do seu alcance. Descansou um migalho. O suor escorria-lhe na cara e no pescoço, encharcava-lhe as costas. Se agora caísse, era verdadeiramente um homem ao mar: ninguém dava por isso, e que dessem – de bordo ninguém lhe acudia. Nem do cais deserto. No dia seguinte, ou só Deus sabe quando, o cadáver seria pescado, meio roído dos peixes e dos caranguejos, ou inchado e fedorento, a escorrer água e lodo. Se o fosse!, porque também podia ir pelo mar abaixo...

Seria mais um desaparecido, ou um cadáver anónimo, sem parentes, amigos nem conhecidos que o viessem identificar e reclamar. Longe, a família, à qual não escrevera em dois anos, continuaria por mais algum tempo à espera dele, ou de notícias: mas acabaria por esquecê-lo. De bordo ninguém dava por nada, ou calavam-se. Quanto aos destinatários, lá em cascos de rolha, que lhes importava?

Nem sequer o conheciam. O comentário indiferente – «Aquilo, se calhar o homem nem chegou a embarcar!» – seria todo o seu responso e epitáfio. Era como se nunca tivesse existido.

Impelido pelo súbito terror de não existir, escorregou mais, tornou a agitar a perna, em vão. Agora o corpo, na horizontal, e a oscilar com a amarra, não podia arrancar-se à gravidade nem recobrar a verticalidade. Ainda que o pé esbarrasse na beira do molhe, como é que ele ia soltar-se, dar uma reviravolta e um pulo, para cair em pé? Nem pensar em pendurar-se pelos braços: ficaria abaixo do nível do cais, e então é que não havia esperança. Não ousava desenvencilhar-se da espia que o prendia à terra e à vida, para se endireitar e dar um salto. Nem sequer podia virar a cabeça para avaliar a que altura estava. Mais alguns minutos, que tanto lhe durariam as forças, e a queda era fatal.

Teve a clara visão do seu estado – a boca negra da morte à espera dele, em baixo, como um tubarão insaciável – e intimamente amaldiçoou a hora em que lhe dera para se meter nestas andanças: se não era marujo, não sabia trepar uma corda nem sabia nadar! Suspenso entre dois nadas.

Encolheu-se todo e, com um esforço desesperado, conseguiu deslizar mais um pouco: o pé tocou por fim na beira do molhe, e um bafo de lume veio-lhe dele, subiu-lhe os membros, reanimou-o como um calor de ressurreição. O cais, molhado e escorregadiço, estava ao seu alcance! Mas por baixo era ainda o abismo de água. Encavalitado na amarra, crispado e dorido, desembaraçou a custo a outra perna, e agitou-as ambas, à procura de apoio. As solas delgadas patinavam na viscosidade do madeiramento gasto, ou no rebordo de aço. Se tentasse firmar-se nelas, podia escorregar, perder o suporte do cabo, e dar o mergulho definitivo. A suar em bica, trémulo do esforço, ficou com as pernas pendentes e imóveis. Voltar para cima, nem pensar nisso: já não tinha forças para marinhar, e que as tivesse, a bordo não o deixariam entrar nem ficar. Agora era respeitar o contrato, e escapulir-se ou morrer. Como uma mosca teimosa, que se agita para escapar à armadilha, tornou a fazer esforços para se apoiar no cais, e soltou uma praga em voz alta:

– Oh rais ta parta a minha sorte!

Nesse instante sentiu que alguma coisa de duro, mão ou tenaz, o agarrava com violência pelos rins, dando-lhe a sensação dum ferro em brasa, e teve este pensamento de renúncia «Estou catrafi lado!» Mas, é curioso, recobrou simultaneamente a calma e a esperança.

O que quer que fosse puxou por ele com força, e ele deixou-se levar passivamente, até que, com o cordão do saco a estrafegá-lo, conseguiu endireitar o corpo e firmar-se nas pernas bambas. Aquela mão de ferro, invisível, arrepanhava-lhe as roupas e as carnes, macerando-o e magoando-o. Depois, com um safanão supremo, quase o ergueu do chão e fê-lo dar uma reviravolta.

Levantou os olhos e viu diante de si um grande vulto negro, um capote de oleado reluzente de chuva, uma farda com botões de metal e uma chapa cor de prata. O agente da polícia inclinou para ele o rosto vermelho e robusto:

– Stowaway, eh? – e sacudiu-o com energia, como se o quisesse despertar do torpor. – Passageiro clandestino? – repetiu, e riu-se. – You speak English?

Que pode um homem dizer em tais circunstâncias? Tinham-lhe recomendado:

«Haja o que houver, não abra bico. Faça-se de trouxa.» Mas com aquela mão brutal não se brincava, e ele respondeu:

– Eu não espique inglish, eu não espique!

O agente largou uma risada de gozo e tornou a sacudi-lo:

– No eespeek! No eespeek!

Tinha um hálito quente, de tabaco e whisky. Na fria humidade de Dezembro, um homem precisa de alguma coisa que lhe aqueça as entranhas, para andar assim de ronda pelos cais desertos, entregue aos seus pensamentos. Depois, na noite de festa, de porta em porta ao longo das tabernas e saloons da borda-d’água – Merry Christmas, Mack! – há sempre quem tenha uma franqueza com a Autoridade, e a gente não é de pau, nem pode fazer uma desfeita, recusar... A verdade é que um trago ou dois dispõem muitas vezes um homem a ser mais tolerante com as fraquezas humanas.

Ficaram assim um pedaço, frente a frente, ele à espera, a contar os minutos de vida, e o agente talvez a dar balanço à situação, a macerar-lhe devagar o ombro magro na tenaz de ferro da manápula, e repetindo a meia-voz:

– No eespeek, no eespeek...

Pequeno como um murganho, a tremer de medo e frio na fatiota leve, à espera da sentença – quem sabe até se o guarda, enraivecido, não lhe ia dar um empurrão, atirá-lo à água? – o passageiro clandestino olhava fixamente os botões da farda, o cassetete comprido e polido.

O agente disse ainda qualquer coisa que ele não entendeu, e apertou-lhe os ombros com mais força, a tactear-lhe os ossos, talvez a ensaiar esmagar-lhos pelo simples prazer de exercer forças naquela fragilidade.

Depois, de repente, obrigou-o a dar meia volta, de cara à terra, apoiou-lhe a mão enorme e espalmada nas costas, e empurrou-o:

– Now run!

Não precisou de entender, e correu: correu sem saber aonde ia, nem se o guarda lhe ia dar um tiro pelas costas como a um ladrão das docas que desobedece à ordem de Alto!, ou se realmente o mandava embora, livre, sem o prender nem o forçar a regressar a bordo. Correu às cegas, a mastigar palavras sem tom nem som, a esbarrar em paredes, a trepar em caixotes, em fardos, em cordames, em máquinas, confuso e perdido, incapaz de encontrar a saída daquele labirinto.

Foi quando a voz do polícia lhe atirou à distância, pela rectaguarda:

– Hey! Merry Christmas!...

O clandestino estacou, compreendendo vagamente, e só nesse instante se lembrou que era Noite de Natal. Então com a garganta apertada, a rir e a chorar, transpôs umas calhas ferroviárias, pulou uma vedação de rede de arame, e deitou a correr em campo aberto, nas trevas.

De longe, o clarão agora mais vivo da cidade guiava-lhe os passos, como o reflexo de misteriosa estrela oculta, ou de lareira acesa, chamando-o à consoada.

José Rodrigues Miguéis

terça-feira, 25 de abril de 2017

SÁTIRA...

O Dia D
Sátira...

«O DIA D»

Esperava cravo ferreiro
Pra dar uso ao Martelo...
Floriu vermelho singelo,
Abril na flor do craveiro.
Em cruz cravo certeiro...
Há que sangrar a purga,
Surge então a verruga
Nos cascos como tumor...
Ouve-se ao longe rumor
Que o 25 ainda madruga!

POETA